PUBLICIDADE

Editorial: Menos contratos, mais custos: a conta da DESO precisa ser explicada

Os números da DESO mostram uma contradição que precisa ser explicada com clareza à população de Sergipe. O número de novos contratos não aumentou. Pelo contrário, caiu. O levantamento realizado no Portal da Transparência aponta aproximadamente 216 instrumentos celebrados em 2023, em 2024, pelo menos 135 em 2025 e cerca de 70 contratos únicos em 2026 até 16 de agosto. Entre 2023 e 2024, portanto, houve redução aproximada de 6,5% na quantidade. De 2024 para 2025, a queda foi ainda maior, próxima de 33%. E 2026 continua em ritmo inferior ao de 2025. O problema, portanto, não está na quantidade de contratos, mas no valor e no peso das despesas associadas à operação.

A diferença aparece de forma muito mais clara nas contas da companhia. Em 2023, a DESO teve receita operacional líquida de aproximadamente R$ 776,5 milhões e custos de operação e manutenção de R$ 549,3 milhões. Em 2024, a receita subiu para R$ 862,6 milhões, crescimento de 11,1%, enquanto os custos chegaram a R$ 694 milhões, aumento de 26,3%. Isso representa cerca de R$ 144,7 milhões adicionais de custo em apenas um ano. Em 2023, a operação consumia aproximadamente 70,7% da receita líquida. Em 2024, passou a consumir 80,5%. O lucro também caiu fortemente, de R$ 46,1 milhões para pouco mais de R$ 10 milhões. Em resumo: a DESO assinou menos contratos, arrecadou mais, mas ficou proporcionalmente muito mais cara para funcionar.

O ano de 2025 torna essa conta ainda mais importante porque foi quando começou efetivamente a nova estrutura do saneamento. A DESO permaneceu responsável pela produção da água, enquanto a Iguá assumiu a distribuição na área concedida. Era razoável esperar, portanto, uma redução significativa das despesas ligadas às atividades transferidas. A receita líquida efetivamente caiu de R$ 862,6 milhões em 2024 para R$ 588,3 milhões em 2025, uma redução de quase 32%. Os custos de operação e manutenção, porém, caíram apenas cerca de 17%, para R$ 573,1 milhões. Assim, praticamente toda a receita líquida passou a ser consumida pelos custos operacionais. Esse é o ponto técnico central: a empresa perdeu uma parte relevante de sua atividade e de sua receita, mas os custos não diminuíram na mesma velocidade.

Em 2026, os primeiros números mostram que o ajuste começou a aparecer com maior intensidade. Nos quatro primeiros meses do ano, a receita líquida caiu cerca de 50,5% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto os custos de operação e manutenção diminuíram aproximadamente 51,2%. As despesas operacionais caíram ainda mais. Isso demonstra que a estrutura da companhia finalmente começou a se adaptar ao novo tamanho. Mas a pergunta permanece: por que essa redução não aconteceu com a mesma velocidade em 2025, logo após a transferência da distribuição? Quantos contratos permaneceram vigentes? Quantos foram aditivados? Quais despesas estavam relacionadas a atividades que já deveriam estar sob responsabilidade da concessionária?

Também é preciso compreender que a nova DESO passou a contratar menos vezes, porém alguns contratos ficaram individualmente muito maiores. Em 2026 aparecem, por exemplo, cerca de R$ 73,6 milhões para a nova ETA do Poxim, R$ 25,3 milhões para aquisição de sulfato de alumínio e R$ 21,6 milhões para duas novas estações de tratamento. São despesas relacionadas diretamente à produção de água e podem ter justificativa operacional. Mas precisam ser acompanhadas de indicadores objetivos. Quanto aumentará a capacidade de produção? Quantos metros cúbicos adicionais serão entregues? Qual município será beneficiado? Qual problema será resolvido? Sem esse tipo de informação, a população vê milhões sendo contratados, mas não consegue medir o resultado.

O diagnóstico, portanto, é simples e deve ser compreendido por qualquer consumidor. De 2023 para 2024, a DESO teve menos contratos novos, mas seus custos operacionais aumentaram 26,3%. Em 2025, depois da concessão de parte importante da operação à Iguá, a receita caiu quase 32%, mas os custos recuaram apenas 17%. Em 2026, finalmente aparece uma redução mais forte da estrutura, embora permaneçam contratos de grande valor ligados à produção. Isso não significa que os gastos sejam necessariamente irregulares ou desnecessários. Significa que precisam ser explicados. Se a DESO deixou de distribuir água diretamente em grande parte do Estado, a sociedade tem o direito de saber exatamente quais despesas desapareceram, quais permaneceram, quais cresceram e por quê. Porque, no fim, a conta é muito objetiva: menos atividades deveriam significar uma estrutura proporcionalmente menor. Se isso não aconteceu no mesmo ritmo, a direção da DESO precisa mostrar, número por número, onde está a diferença e qual benefício concreto esse dinheiro está trazendo para a torneira do sergipano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *