Sergipe chega a 4 de setembro diante de uma decisão que ultrapassa Valmir de Francisquinho. O Tribunal Regional Eleitoral julgará se o cidadão mais votado para governador em 2022 poderá, finalmente, disputar uma eleição com os votos contabilizados. Naquele primeiro turno, Valmir recebeu 457.922 votos, quantidade superior à de todos os adversários, enquanto Fábio Mitidieri terminou em terceiro lugar na votação depositada nas urnas. Os votos de Valmir, porém, foram considerados nulos judicialmente, e Sergipe terminou com 39,78% de votos anulados, a maior proporção do país. Onze dias depois da eleição, uma decisão do TSE suspendeu os efeitos da inelegibilidade, mas já não havia calendário capaz de devolver ao eleitor o voto retirado da apuração. Valmir não foi juridicamente proclamado vencedor. Foi, contudo, o homem que recebeu mais votos. Essa verdade cabe inteira numa frase e incomoda mais do que muito discurso sobre democracia. \
A trajetória de Valmir lembra, guardadas as proporções, aquelas histórias em que o personagem passa metade do filme no chão e a outra metade recusando permanecer ali. É o Rocky Balboa da política sergipana, não pela ficção dos golpes, mas pela realidade das pancadas. Filho de família pobre, criado no ambiente de trabalho do pai marchante, ele aprendeu cedo que carne, política e sobrevivência exigem pulso. Foi atacado pela origem, pelo ofício, pela Justiça, pelos adversários e até pelo próprio coração. Caiu em 2022, voltou para Itabaiana, venceu novamente, renunciou no prazo legal, enfrentou outra condenação, obteve tutela no STJ e chegou a um julgamento colegiado noticiado como vitória unânime. Valmir foi, veio e venceu etapas que pareciam desenhadas para encerrá-lo. Há homens que recebem sobrenome pronto. Outros precisam construí-lo apanhando. Valmir de Francisquinho virou sobrenome político justamente porque ninguém conseguiu apagá-lo.
O parecer assinado pelos procuradores eleitorais José Rômulo Silva Almeida e Gabriela Barbosa Peixoto é claro: a Procuradoria quer o deferimento do registro. Primeiro, porque a Federação Renovação Solidária, formada por PRD e Solidariedade, teve seu DRAP indeferido e foi declarada não habilitada a participar do pleito estadual. A federação que tentou retirar Valmir da eleição chegou ao processo com dificuldades para provar que ela própria poderia permanecer na eleição. É uma ironia que nem o melhor roteirista ousaria entregar pronta. Segundo, porque a tutela concedida pelo STJ em janeiro suspendeu os efeitos da condenação por improbidade, e as decisões posteriores citadas pela impugnante atingiram outros recorrentes, não Valmir. Terceiro, porque a anunciada vitória no STJ, por cinco votos a zero, ainda aguardava publicação oficial quando o parecer foi assinado. Mesmo sem ela, concluiu o Ministério Público Eleitoral, a tutela continuava válida. Com a confirmação do acórdão favorável, o argumento da improbidade perde ainda mais oxigênio.
A segunda acusação dizia que Valmir renunciou à Prefeitura de Itabaiana no papel, mas continuou governando por trás da cadeira. A audiência, entretanto, entregou impressões, ressentimentos, notícias de corredor e muito “ouvi dizer”. Não apareceu decreto assinado, despesa ordenada, licitação homologada, servidor nomeado, mensagem administrativa ou ordem direta expedida por Valmir depois da renúncia. Uma informante atribuiu a ele uma exoneração assinada pelo prefeito José Paes dos Santos, Zequinha da Cenoura. Outra testemunha admitiu que Valmir jamais conversou com ela sobre o desligamento. Houve quem dissesse que ele participara de reunião sem ter entrado na sala. Houve quem acompanhasse a Prefeitura principalmente pelas redes sociais. Isso pode alimentar programa de rádio, conversa de mercado e mesa de bar. Para retirar um candidato da eleição, é pouco. Processo não é concurso de impressão. Suspeita levanta pergunta. Prova sustenta sentença.
É por isso que o TRE, respeitada a independência de seus julgadores, tem fundamentos jurídicos sólidos para acompanhar o Ministério Público e deferir a candidatura. Não porque José Rômulo e Gabriela Barbosa simpatizem com Valmir. O parecer não fala em simpatia. Fala em legitimidade processual comprometida, tutela suspensiva vigente e insuficiência de provas. O governador Fábio Mitidieri costuma dizer que deseja enfrentar Valmir nas urnas. Ótimo. Amanhã poderá começar a demonstrar que essa disposição não dependia da ausência do adversário. Não existe prova pública que autorize afirmar como fato que Fábio fez lobby em Brasília para impedir a candidatura. Mas existe uma pergunta política inevitável: por que tanta gente ligada ao seu campo trabalhou para que a disputa terminasse antes do voto? Antônio Carlos Valadares Filho, secretário especial da Cultura e dirigente do Solidariedade em Sergipe, integra a estrutura política relacionada à federação que apresentou a impugnação. Cultura costuma preservar obras. Desta vez, o movimento partidário tentou retirar um personagem do cartaz.
Fábio disse que Sergipe precisava de governador, não de marchante. Talvez tenha esquecido que governar também exige conhecer o peso das coisas, separar produto de propaganda e prestar contas no fim do expediente. Se o TRE deferir o registro, Sergipe poderá escolher entre o governador do palácio e o filho do marchante. Poderá julgar a concessão de água e esgoto à Iguá por 35 anos, mediante outorga de R$ 4,5 bilhões; o avanço das organizações sociais sobre unidades de saúde; a parceria privada prevista para o Hospital do Câncer; as filas do HUSE; o cuidado com a Mata Atlântica; a proteção da infância e a longa espera dos professores pelo restabelecimento da carreira. Poderá também cobrar do Banese, que registrou lucro recorde de R$ 151,5 milhões em 2025, mais crédito para agricultores, comerciantes, pecuaristas e pequenos empresários, porque banco público saudável deve financiar o povo, não apenas exibir balanço bonito. Amanhã, o TRE não escolherá o governador. Apenas decidirá se o eleitor poderá fazê-lo. E talvez seja exatamente isso que esteja deixando tanta gente sem água, sem cultura, sem saúde, sem emprego, sem educação e, principalmente, sem sono.




