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Entre cruzes e contratos: Panzuá desenterra a paz suspeita do La Pace

Em Nossa Senhora do Socorro, até os mortos entraram na fila da política. O Cemitério e Crematório La Pace, inaugurado com pompa e promessa de modernidade, virou o retrato do que o poder público tem de mais criativo: transformar até o descanso eterno em negócio.

O vereador Luiz Paulo do Panzuá trouxe o que todo bom roteiro de escândalo precisa, papel de cartório e indignação na voz: “Está aqui o documento, Rosman Pereira é um dos donos do La Pace!” E completou, com aquele tempero de quem fala o que o povo pensa: “Esse Samuel tem uma fome canina!”

O nome La Pace é quase uma piada. Paz pra quem? Para o povo, nenhuma. Para alguns gestores, toda. Paz de quem dorme tranquilo depois de fechar contrato. O prefeito Samuel Carvalho, que devia cuidar da moralidade, parece ter trocado o altar da ética pelo balcão das licitações.

O secretário de Obras, Rosman Pereira, aparece como o homem que entende de tudo, de obra, de cemitério e, principalmente, de coincidência. É responsável pelos cemitérios públicos, todos interditados e cheios de mato, e também aparece, veja só, na escritura do La Pace. Coincidência demais até pra quem acredita em milagre.

É quase poético: enterra-se a moral e brota o lucro. Enquanto isso, famílias inteiras vivem um drama que não cabe em relatório. Gente simples, que comprou seu jazigo, construiu o túmulo da família e guardou ali sua história, agora não pode mais enterrar ninguém. Os cemitérios públicos estão trancados e o último adeus só tem um endereço permitido: La Pace. O luto, que já era caro, agora vem com boleto e assinatura.

A situação é, no mínimo, de fazer rir pra não chorar. Rosman é secretário e empresário; Samuel é prefeito e espectador; e o Ministério Público precisa, com urgência, tomar uma posição, não pra bater, mas pra agir. Porque a verdade não pode continuar repousando em silêncio, enquanto o povo paga por ela em parcelas.

O vereador Panzuá resumiu o clima com sua verve de feira livre: “Vocês pensam que a Justiça não pega, mas vai pegar!” E o povo, já sem paciência, assiste à novela de braços cruzados, com a sensação de que, em Socorro, a prefeitura virou extensão do cemitério, só muda quem respira.

E o mais irônico é que, enquanto tudo isso acontece, o povo de Socorro continua pedindo socorro, ao Ministério Público, à Justiça, à consciência de quem ainda tem uma. Pedindo socorro pra poder, quem diria, enterrar em paz seus mortos.

La Pace virou símbolo de uma paz que não é de espírito, é de conchavo. E a verdadeira paz, essa que não tem contrato, nem placa de inauguração, só vai chegar quando a Justiça resolver desenterrar a verdade. Porque, por enquanto, o que está sendo enterrado em Socorro não é só gente, é a dignidade. E, pelo visto, com recibo assinado e carimbo de “visto e aprovado”.

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