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Entre dívida, diplomacia e debate vazio, o Brasil chega à eleição com a conta aberta

Existe uma distância cada vez mais curiosa entre o Brasil apresentado no palanque e aquele que acorda cedo, abre a loja, paga imposto, pede empréstimo e descobre que o dinheiro continua custando como se viesse acompanhado de motorista particular. A candidatura de Lula a um quarto mandato chega prometendo novamente crescimento, justiça social, recuperação da capacidade do Estado e enfrentamento ao poder do Congresso. O problema é que, depois de doze anos acumulados na Presidência ao final do atual mandato, promessa deixa de ser projeto e começa a parecer pedido de prorrogação. Para Sergipe, isso não é discussão acadêmica de Brasília. O comerciante de Aracaju, o empresário de Itabaiana, o produtor do interior e a família que parcela uma geladeira sentem política econômica muito antes de saberem explicar o que significa resultado nominal. Brasília escreve “política fiscal”. O cidadão lê “prestação mais cara”.

A situação das contas públicas ajuda a retirar o debate do terreno da torcida organizada. A Instituição Fiscal Independente do Senado projeta dívida bruta de 82,5% do PIB em 2026, resultado nominal negativo equivalente a 9% do PIB e déficit primário do setor público. Também projeta Selic de 14% ao fim do ano. Não é exatamente o tipo de fotografia econômica que alguém coloca na geladeira para mostrar às visitas. O governo pode discutir metodologia, exceções, metas e arcabouços até o PowerPoint pedir aposentadoria, mas dívida continua sendo dívida. E juros altos não ficam hospedados em Brasília. Eles viajam. Chegam ao financiamento do carro, ao capital de giro, ao crédito imobiliário e à decisão da empresa que estava pensando em investir e resolve pensar mais um pouco.

Em Sergipe, a conversa ganha proporção ainda mais concreta. O orçamento estadual bruto de 2026 supera R$ 24 bilhões, com receita corrente estimada em cerca de R$ 19,27 bilhões depois das deduções constitucionais. Estados e municípios convivem diretamente com transferências federais, Fundeb, FPE, FPM e toda uma engrenagem fiscal que faz Brasília parecer distante apenas no mapa. Quando a União perde credibilidade fiscal e paga mais caro para se financiar, o problema não fica trancado no Ministério da Fazenda tomando cafezinho. Ele contamina crédito, investimento e expectativas. É o velho milagre brasileiro da descentralização do sofrimento: Brasília produz a incerteza e consegue distribuí la nacionalmente com eficiência quase suíça.

Há também a política externa, que resolveu abandonar o terno diplomático e experimentar o figurino de programa de auditório. A tensão entre o governo Lula e os Estados Unidos ganhou dimensão econômica relevante, com novas sobretaxas norte americanas atingindo parcelas das exportações brasileiras. Segundo o próprio Ministério do Desenvolvimento, as medidas anunciadas em julho alcançam 23,1% das exportações do Brasil. O governo brasileiro tem razões legítimas para contestar medidas que considera injustas. O problema começa quando soberania nacional corre o risco de virar material de campanha e diplomacia passa a ser administrada como disputa de rede social. País não pode conduzir relação comercial de bilhões de dólares como dois influenciadores brigando nos comentários. Trump pode fazer barulho. Lula pode responder. A Argentina pode entrar na conversa. Quem deveria permanecer sentado à mesa, porém, é o interesse brasileiro.
E onde entra Sergipe nessa confusão internacional? Na conta, naturalmente. Uma economia pequena e aberta não precisa exportar cada saco produzido diretamente para Washington para sentir oscilações de câmbio, crédito, insumos, confiança empresarial e cadeias nacionais de produção. O empresário sergipano não acorda perguntando se o Itamaraty ganhou a discussão. Ele quer saber quanto vai pagar, quanto conseguirá vender e se vale a pena contratar. Diplomacia séria existe justamente para impedir que divergências de presidentes acabem transformadas em custo para quem jamais foi convidado à reunião. A política externa não deveria funcionar como campeonato de quem dá a resposta mais patriótica. Bandeira é ótima para cerimônia. Para pagar fornecedor, infelizmente, ainda exigem dinheiro.

Depois aparece a discussão dos debates presidenciais, talvez a parte mais engraçada se não fosse tão importante. Lula avalia a possibilidade de faltar a encontros televisivos, enquanto Flávio Bolsonaro condiciona sua presença à participação do presidente. É quase uma eleição organizada por adolescentes decidindo quem vai à festa dependendo de quem confirmou presença no grupo. Quem pretende governar mais de 200 milhões de brasileiros precisa aceitar perguntas que não foram previamente acariciadas pela assessoria. Debate serve justamente para retirar candidato do ambiente climatizado do marketing e colocá-lo diante de contraditório, números, adversários e jornalistas. Lula, como presidente e candidato à reeleição, tem responsabilidade ainda maior. Quem pede mais quatro anos não deveria ter medo de duas horas sem teleprompter.
O ponto central, portanto, não é transformar Lula em responsável individual por todos os males brasileiros nem fingir que seus adversários possuem uma cartilha secreta capaz de fazer dívida desaparecer e juros se ajoelharem diante da autoridade presidencial. Isso seria propaganda, não editorial. A questão é bem mais incômoda. Lula não é mais candidato a novidade. Não pode pedir ao eleitor que avalie apenas intenções. Depois de três governos, o currículo deixou de ser promessa e virou prestação de contas. Se deseja um quarto mandato, precisa explicar com números como estabilizará a dívida, como conviverá com um Congresso pouco alinhado, como elevará produtividade, como controlará despesas e como fará política externa sem permitir que conflito internacional vire combustível eleitoral. A experiência que antes era seu maior argumento agora também é a testemunha de acusação.

Visto de Sergipe, talvez esse seja o ponto mais importante. Brasília adora transformar economia em siglas, diplomacia em nota oficial e eleição em espetáculo. Aqui embaixo, tudo volta à sua forma original: dinheiro. É o preço do crédito, a contratação que não aconteceu, a empresa que adiou investimento, o município dependente de transferência e a família que percebe que a matemática doméstica não aceita discurso. Lula pode disputar um quarto mandato, Flávio Bolsonaro pode enfrentá lo, os marqueteiros podem produzir vídeos emocionantes e os candidatos podem até decidir se comparecem ou não aos debates. A calculadora, infelizmente para todos eles, não possui partido. E quando a conta chega, ela não pergunta se o contribuinte é de esquerda, de direita ou de Sergipe. Só pergunta a senha do cartão.

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