Agora surgiu uma pergunta deliciosa para animar a pré-campanha sergipana: Fábio Mitidieri vai aos debates de 2026? O governador já declarou apoio à reeleição de Lula, aproximou seu projeto político do presidente e agora assiste de camarote à discussão nacional sobre a possibilidade de Lula evitar alguns confrontos televisivos. Naturalmente aparece a provocação: será que Fábio também vai aderir à modalidade “debate somente mediante análise prévia do departamento de marketing”? Não existe, até agora, prova de que ele pretenda copiar Lula nessa estratégia. Mas a dúvida não nasceu do nada. Fábio possui antecedentes no prontuário eleitoral da ausência seletiva.
Em 2022, ele não fugiu de todos os debates. Isso precisa ser dito porque jornalismo não pode trocar arquivo por memória conveniente. Fábio participou da TV ITNet, enfrentou os adversários na TV Sergipe no primeiro turno e esteve frente a frente com Rogério Carvalho na TV Atalaia no segundo. Portanto, chamar o governador de desertor profissional do microfone seria exagero. O detalhe divertido é outro. Quando chegou a vez de determinados debates de rádio, Fábio simplesmente decidiu que tinha coisa melhor para fazer. Faltou ao debate da Fan FM em setembro, sua campanha anunciou que também não participaria do encontro da 103 FM e ele próprio confirmou que se tratava de estratégia eleitoral. Enquanto os adversários discutiam, o candidato fazia carreata. Democracia também tem delivery.
No segundo turno, o roteiro ganhou reprise. Fábio voltou a não comparecer ao debate da Fan FM. Portanto, seu histórico não demonstra medo permanente de debate, mas demonstra algo politicamente mais interessante: Mitidieri já mostrou que calcula onde vale a pena entrar no ringue. Quando considerou importante aparecer na televisão, apareceu. Quando a campanha entendeu que o custo poderia superar o benefício, deixou a cadeira vazia e foi fazer campanha em outro lugar. É quase um aplicativo eleitoral: Fábio seleciona a corrida, verifica a tarifa dinâmica e decide se aceita.
E ninguém diga que o governador não gosta de confronto. Gosta, e ultimamente parece até se divertir. Quando um repórter perguntou sobre falta de água em Itabaiana, em junho de 2025, Fábio respondeu ironicamente oferecendo um banheiro. A frase correu pelas redes e virou notícia, rendendo críticas da oposição e até comentários de que a brincadeira havia roubado a cena dos investimentos que ele anunciava naquele dia. Mais recentemente, mandou Emília Corrêa “sair do TikTok e começar a trabalhar”, além de trocar provocações públicas com Valmir sobre saúde, Deso e Iguá. Ou seja, para duelo verbal improvisado, Fábio não parece sofrer de timidez. O microfone nunca precisou de boletim de ocorrência.
É justamente aí que 2026 fica interessante. Uma coisa é responder jornalista em coletiva, cercado de assessores, com a possibilidade de encerrar o assunto e seguir para a próxima agenda. Outra é sentar diante dos adversários com cronômetro, réplica e tréplica. Fábio agora não é mais o candidato que promete governo. É o governador que terá de explicar quatro anos de governo. Água, Iguá, saúde, educação, obras, segurança, concessões, contratos e promessas de 2022 poderão chegar ao estúdio sem convite e sentar na primeira fila. O debate desta vez terá memória.
Valmir de Francisquinho também não chega a esse eventual confronto como personagem estreante. Já participou do principal embate de 2022 ao lado de Fábio e dos demais candidatos, possui longa experiência eleitoral e construiu uma comunicação popular baseada em linguagem direta e enfrentamento político. Isso não permite antecipar vencedor de debate algum, mas torna um eventual encontro entre os dois eleitoralmente relevante. Fábio terá os números, obras e estrutura do governo para defender. Valmir terá a oposição e quatro anos inteiros de administração para questionar. O apresentador pode até economizar no café porque provavelmente não faltará assunto.
Há ainda um episódio de 2022 que precisa ficar fora da brincadeira. Fábio também não compareceu ao último debate da TV Sergipe no segundo turno, mas estava internado e sua campanha apresentou documentação médica. A emissora cancelou o encontro conforme as regras previamente acordadas. Colocar essa ausência na mesma conta das faltas deliberadas à Fan FM seria intelectualmente desonesto. Uma coisa é estratégia eleitoral. Outra é hospital. Até o stand up precisa respeitar o prontuário e o conselho que seria melhor adoecer naquele momento.
A pergunta de 2026, portanto, continua aberta e é muito melhor do que simplesmente chamar Fábio de fujão. O governador vai comparecer a todos os grandes debates ou voltará a escolher quais microfones merecem sua presença? Se Lula concluir que determinados confrontos são eleitoralmente desnecessários, Fábio seguirá caminho semelhante ou fará questão de mostrar independência justamente nisso? Ninguém sabe ainda. Mas uma certeza já existe: depois de quatro anos governando e de tantas respostas espirituosas nas coletivas, será difícil alegar falta de assunto. Se aparecer, Sergipe terá debate. Se não aparecer por estratégia, também terá assunto. E, considerando o histórico do banheiro, talvez seja prudente a emissora deixar um disponível nos bastidores e um carro da Samu de prontidão..




