O suplente de senador é uma das figuras mais importantes e menos examinadas da política brasileira. Aparece discretamente no registro da candidatura, não participa dos debates, quase nunca pede votos e costuma sorrir na fotografia como quem foi convidado apenas para segurar a bandeira. Mas basta o titular morrer, renunciar, assumir outro cargo ou tirar licença superior a 120 dias para o figurante atravessar o palco e sentar na cadeira principal. É o que determina o artigo 56 da Constituição. O suplente não recebe votos individualmente, porém pode herdar oito anos de mandato, gabinete, influência, orçamento e poder. É uma espécie de casamento político em que o eleitor conhece o noivo, mas só depois da cerimônia descobre quem poderá passar a lua de mel em Brasília.
É por isso que as escolhas de Rogério Carvalho e do delegado André Davi merecem mais atenção do que receberam. André decidiu colocar a própria esposa, Rebeka Maia, como primeira suplente. O amor pode superar muitas fronteiras, mas não deveria dispensar explicações políticas. Quando uma candidatura ao Senado começa a parecer árvore genealógica, o eleitor tem o direito de perguntar se está elegendo um representante ou concedendo uma espécie de plano familiar de mandato. A indicação ocorreu depois da saída da Federação PSDB Cidadania da coligação, que inicialmente teria o direito de escolher os suplentes. André resolveu a dificuldade partidária com uma solução doméstica, rápida e afetivamente segura. Faltou apenas explicar por que a vida conjugal, respeitável no ambiente privado, passou a funcionar como credencial para uma cadeira da República.
Rogério Carvalho conseguiu produzir uma pergunta ainda mais intrigante. Registrou como primeiro suplente Bruno Costa Nunes, empresário de 43 anos, nascido em Brasília, filiado ao PT e sem candidatura anterior identificada nos dados eleitorais disponíveis desde 1998. Na segunda suplência colocou Fabiano Oliveira, empresário, comunicador, ex-vereador de Aracaju, ex-deputado estadual, ex-secretário de Cultura e Turismo e ex-presidente da Emsetur. A ordem parece ter sido montada por alguém que organizou o currículo de trás para a frente. Fabiano tem história pública, votos, serviços prestados, erros, acertos, cicatrizes e endereço afetivo em Sergipe. Bruno tem um nome no registro eleitoral e um ponto de interrogação do tamanho do Senado.
Fabiano Oliveira nasceu, cresceu, estudou e construiu sua vida em Sergipe. Entrou cedo na política, exerceu dois mandatos de deputado estadual, foi vereador da capital, comandou áreas estratégicas do turismo e da cultura e ajudou a transformar o Pré-Caju em patrimônio econômico e afetivo do Estado. Pode ser amado, criticado, aplaudido ou vaiado, mas jamais apresentado. Fabiano não precisa de legenda embaixo da fotografia. O sergipano sabe quem ele é, conhece sua voz, sua trajetória e até o jeito como ocupa os espaços públicos. Quando Fabiano fala em turismo, cultura, entretenimento ou Aracaju, fala de uma realidade que viveu. Seu currículo não desembarcou ontem no aeroporto. Foi escrito nas ruas, nos palcos, nas campanhas e nas repartições de Sergipe.
Bruno Costa Nunes, ao contrário, estreia na política diretamente na porta do Senado. Nasceu em Brasília, declarou ao TSE a profissão de empresário e aparece associado publicamente a atividades empresariais ligadas ao agronegócio. Pode ser competente, sério e bem intencionado. O problema não é aquilo que se sabe contra ele. O problema é aquilo que Sergipe ainda não sabe sobre ele. Qual é sua história no PT? Quando começou sua militância? Que causas sergipanas defendeu? Que municípios conhece além dos que eventualmente aparecem em seus negócios? Quem o apresentou a Rogério? Por qual motivo passou à frente de Fabiano Oliveira? A candidatura informa que Bruno existe. Falta explicar politicamente por que ele está a uma ausência de distância do Senado.
Rogério precisa responder também por que não escolheu alguém como Sívio Santos, nome com histórico do PT, ou Sérgio Gama, que já foi candidato a vice governador em sua chapa. Havia quadros sergipanos, militantes conhecidos, dirigentes partidários e pessoas com vida pública comprovada. Ainda assim, a primeira suplência foi entregue a um empresário cuja biografia política em Sergipe permanece invisível. A pergunta inevitável é simples: qual foi o critério? Representatividade partidária, composição econômica, aproximação pessoal, interesse eleitoral ou capacidade de investimento na campanha? Ninguém deve acusar Bruno de financiar qualquer coisa sem provas. Mas Rogério tem a obrigação política de explicar por que um desconhecido recebeu a posição mais valiosa depois da titularidade. O silêncio, nesse caso, não protege o escolhido. Apenas engorda a suspeita.
Sergipe já elegeu representantes nascidos fora de suas fronteiras. Alessandro Vieira nasceu em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, e Laércio Oliveira nasceu em Recife. Ambos, porém, construíram carreiras públicas e profissionais no Estado antes de chegar ao Senado. Alessandro trabalhou durante anos na Polícia Civil sergipana e foi delegado geral. Laércio exerceu mandatos de deputado federal por Sergipe, comandou entidades empresariais e criou relações políticas duradouras no Estado. A sergipanidade não é apenas certidão de nascimento. É pertencimento, convivência, serviço e responsabilidade. O problema de Bruno não é ter nascido em Brasília. É pretender chegar ao Senado por Sergipe antes de Sergipe compreender quando, como e por que ele chegou aqui.
Rogério Carvalho quer que o eleitor vote nele e leve Bruno no pacote, como aqueles produtos de supermercado em que a embalagem diz promoção, mas ninguém sabe exatamente o que veio grudado atrás. Isso não pode ser engolido goela abaixo. Se Rogério vencer e, no futuro, renunciar, falecer, licenciar se por longo período ou assumir outro cargo, Bruno poderá representar Sergipe no Senado sem que o sergipano tenha apertado um único botão com seu nome. Fabiano Oliveira deveria ser o primeiro suplente porque reúne história, identidade, experiência e vínculo real com o Estado. Bruno pode até possuir currículo empresarial. O que ainda não mostrou é o currículo político que o colocou na frente de Fabiano. Portanto, a pergunta seguirá ecoando até que Rogério tenha a elegância democrática de responde-la: Rogério, quem é esse Bruno? Porque Fabiano, Sergipe conhece.




