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Fábio Mitidieri passa a chave do câncer ao privado

Sergipe assistiu à inauguração do Hospital do Câncer como quem vê nascer uma promessa de dignidade. Era o tipo de obra que mexe com a alma do povo, porque câncer não combina com fila, improviso, favor político nem balcão de indicação. O Governo do Estado anunciou investimento de mais de R$ 170 milhões na unidade, com a promessa de transformar o atendimento oncológico em Sergipe. Só que, mal a fita simbólica foi cortada, veio o roteiro que já está ficando repetido no Palácio: o Estado constrói, o povo paga, o governo posa para a foto e depois chama a iniciativa privada para sentar na cadeira principal. Aí o sergipano fica com aquela cara de quem comprou o bolo, pagou a festa, lavou os pratos e ainda foi barrado na entrada. 

O projeto aprovado na Assembleia Legislativa autoriza o Poder Executivo a conceder, por Parceria Público Privada, na modalidade administrativa, o Hospital do Câncer de Sergipe. O processo legislativo aparece como Projeto de Lei 121/2026, com ementa clara: autorizar o Estado a outorgar em concessão o Hospital do Câncer. O governo sustenta que o modelo preserva a regulação pública e o acesso pelo SUS, transferindo ao parceiro privado a operação, manutenção, insumos, equipamentos e recursos humanos. É a velha embalagem de presente: por fora vem escrito eficiência; por dentro, muita gente enxerga privatização com perfume francês e crachá de consultoria. 

Georgeo Passos foi direto ao ponto e colocou o dedo na ferida sem pedir licença ao anestesista. Disse que, enquanto a saúde em Sergipe virar moeda de troca para candidatura a deputado federal, os problemas continuarão batendo na porta do povo. Ele afirmou ser contra a privatização da saúde pública, assim como foi contra a venda da DESO, e questionou se o governo não teria competência para cuidar da saúde oncológica dos sergipanos. A frase pesa porque não fala apenas de gestão; fala de modelo de Estado. Em tradução popular: se o governo não consegue cuidar nem da água nem da saúde, daqui a pouco vai terceirizar até a desculpa, com contrato de 35 anos e reajuste anual.

A votação também precisa ser colocada na vitrine, porque democracia sem nome é feira sem balança. Votaram contra Linda Brasil, Georgeo Passos e Gracinha Garcez, que ocupa a cadeira de Marcos Oliveira. Votaram a favor, conforme a relação informada, Adailton Martins, Áurea Ribeiro, Carminha Paiva, Chico do Correio, Cristiano Cavalcante, Garibalde Mendonça, Ibrain de Valmir, Jeferson Andrade, Jorginho Araújo, Kaká Santos, Kitty Lima, Lidiane Lucena, Luciano Bispo, Luciano Pimentel, Luizão Donatrampi, Maisa Mitidieri, Marcelo Sobral, Netinho Guimarães, Neto Batalha, Pato Maravilha e Paulo Júnior. Cada parlamentar carrega agora sua assinatura política nessa decisão. Não adianta depois fazer vídeo com jaleco emocional, música triste e olhar para o horizonte. O painel votou, a história anotou.

O problema é que Sergipe ainda está engasgado com a DESO. A concessão parcial dos serviços de água e esgoto foi vencida pela Iguá Saneamento em 2024, com contrato de 35 anos, outorga de R$ 4,5 bilhões e promessa de universalização. O discurso era bonito, daqueles que chegam de paletó alinhado, conversa enfeitada e sorriso de gerente oferecendo empréstimo em porta de banco. Mas a realidade, para muita gente, veio em forma de torneira seca, reclamação popular e cobrança política. A própria Assembleia já registrou críticas ao serviço da Iguá, com denúncias sobre má qualidade e falta de água. Então é natural que o povo olhe para a concessão do Hospital do Câncer e pense: se a água já virou novela de fim de feira, imagine a quimioterapia entrando nessa história com recibo, contrato e conversa mole de quem promete o céu, mas entrega um balde vazio.

A crítica de Linda Brasil também entrou nesse debate com força. Ela já havia alertado que seria absurdo um investimento público de quase R$ 300 milhões ser entregue à iniciativa privada e citou preocupação com modelos de gestão por organizações sociais, inclusive mencionando investigações envolvendo esse tipo de entidade. Eduardo Amorim, por sua vez, classificou a aprovação da concessão como nova derrota para os pacientes oncológicos. Ou seja, não se trata de birra partidária nem de chilique ideológico de corredor. Há uma pergunta séria no centro da sala: se o hospital foi construído com dinheiro público para atender o povo pelo SUS, por que o Estado não estrutura concurso, carreira, gestão técnica e controle público direto para fazer funcionar aquilo que ele próprio prometeu entregar? 

No fim das contas, Fábio Mitidieri fica diante de uma contradição política difícil de maquiar. Primeiro, o governo avança na concessão da DESO, vendendo ao povo a ideia de modernização. Depois, com a água ainda rendendo queixas e dor de cabeça, aparece a concessão do Hospital do Câncer, justamente uma obra carregada de simbolismo humano, dor familiar e esperança coletiva. A saúde oncológica não pode virar ativo administrativo, vitrine eleitoral nem laboratório de terceirização. O câncer não espera edital, não negocia prazo contratual e não entende cláusula de performance. O sergipano quer tratamento, médico, exame, remédio, acolhimento e dignidade. E, nesse ponto, a pergunta de Georgeo Passos fica ecoando como martelo em plenário vazio: se o Estado tem dinheiro para construir, por que não tem coragem, competência e compromisso para cuidar?

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