Há homens que aprendem cedo a conviver com o despertador. Valmir de Francisquinho aprendeu a acordar antes dele. Quando boa parte de Sergipe ainda dormia, ele já estava de pé, enfrentando feira, sol, peso, carne, freguês e cansaço. Foi vendedor de picolé, feirante, trabalhador braçal e homem do campo. Depois, no ramo das autoescolas, continuou procurando clientes com a mesma pressa de quem sabe que a vida não entrega nada em domicílio. O menino que trabalhou antes de o sol nascer tornou-se vereador por cinco mandatos, prefeito de Itabaiana por quatro vezes e uma das maiores lideranças populares de Sergipe. Sua biografia não foi escrita em gabinete refrigerado, colégio particular, motorista e em festas. Foi escrita no suor, no barulho da feira e na dignidade de quem chegou à política sem esquecer o preço de um quilo de carne nem o peso de uma caixa carregada nos braços.
Valmir também levou para a vida pública a velocidade de quem passou a vida resolvendo. Ele não nasceu para administrar desculpas nem para ornamentar dificuldades. Enquanto parte da política sergipana adotou o gerúndio como programa de governo, “estamos licitando”, “estamos planejando”, “estamos concluindo”, Valmir prefere os verbos que cabem no presente: faço, resolvo, entrego. O gerúndio, essa confortável sala de espera da administração pública, nunca encontrou cadeira no vocabulário dele. É por isso que tudo acaba chegando ao seu radar, da organização de uma carreata à contratação de um carro, da perfuração de um poço à solução do problema de uma comunidade. O defeito de Valmir talvez seja justamente acreditar que o dia tem mais de 24 horas e que seu corpo assinou contrato de exclusividade com a disposição.
Em 2022, essa ligação com o povo foi submetida a uma das experiências mais traumáticas da história eleitoral sergipana. Valmir recebeu 457.922 votos nas urnas, votação superior à de Rogério Carvalho, que obteve 338.796 votos, e à de Fábio Mitidieri, que recebeu 294.936. Como sua candidatura havia sido indeferida, seus votos foram considerados nulos pela Justiça Eleitoral. Juridicamente, portanto, não se pode dizer que ele foi eleito governador. Politicamente, porém, ninguém consegue apagar o fato essencial: mais de 457 mil sergipanos digitaram seu número e confirmaram seu nome. Foram 119.126 votos a mais que Rogério e 162.986 a mais que Fábio. A caneta anulou os votos para fins oficiais, mas não conseguiu apagar a memória de quem votou. A urna tem resultado jurídico, mas também guarda cicatrizes políticas.
Agora, no entanto, não é a política que pede atenção. É o homem. Depois de tantos anos vivendo como se fosse uma máquina, o corpo cobrou aquilo que a agenda jamais conseguiu oferecer: pausa. Valmir sentiu um mal-estar, procurou atendimento e foi levado ao Hospital Primavera para investigação clínica. O boletim divulgado informou que ele estava acordado, em bom estado geral e acompanhado pela equipe médica. Eduardo Amorim, médico e companheiro de caminhada, acompanhou o caso de perto, recomendou repouso e depois tranquilizou os sergipanos ao afirmar que Valmir estava bem, conversando normalmente e que os exames feitos até então estavam dentro da normalidade. Não cabe inventar diagnóstico nem transformar preocupação em espetáculo. Cabe respeitar a medicina, aguardar os exames e compreender que até os homens mais fortes precisam ouvir o próprio corpo.
Valmir não é uma máquina, embora muitas vezes tenha vivido como uma. Máquinas não sentem medo, não carregam a memória dos casos de doença na família, não recebem orações nem deixam uma população inteira apreensiva diante de um boletim médico. Valmir é carne, osso, memória, fé e limite. Talvez este episódio tenha vindo para lembrar ao próprio Valmir que liderar não significa carregar Sergipe sozinho nas costas. Há horas em que a maior demonstração de coragem não é levantar imediatamente, mas permanecer deitado pelo tempo necessário. Há batalhas que se vencem no palanque e outras que se vencem obedecendo ao médico. O povo que deseja vê-lo caminhando pelas ruas também precisa desejar que ele caminhe devagar enquanto recupera as forças.
Faltam exatamente 40 dias para o primeiro turno de 4 de outubro. Quarenta dias são uma eternidade para quem faz política com o coração acelerado, mas podem ser apenas o tempo necessário para um homem reorganizar o corpo e reafirmar a esperança. Valmir é como o jacarandá: o vento bate, os galhos vergam, as folhas estremecem, mas a raiz continua agarrada à terra. E raiz popular não se improvisa em campanha, não se compra com publicidade e não se planta na véspera da eleição. Como cantou Cazuza, “o tempo não para”. A oposição sergipana também não vai parar. Mas, antes de qualquer carreata, discurso ou vitória, existe uma prioridade maior: que Valmir descanse, recupere-se e volte quando estiver verdadeiramente pronto. Porque o jacarandá pode envergar. O que sua história até hoje demonstrou é que ele não quebra. Recupere-se volte!




