O Governo de Sergipe gosta de anunciar equilíbrio fiscal, nota máxima do Tesouro e capacidade para contratar empréstimos bilionários. Quando o assunto é mercado financeiro, o Estado aparece forte, confiável e cheio de saúde. Mas, diante dos professores, essa prosperidade subitamente pega atestado médico. O Sintese afirma que os demonstrativos oficiais revelam margem de R$ 1,26 bilhão em relação ao limite de despesa com pessoal da Lei de Responsabilidade Fiscal e superávit orçamentário superior a R$ 860 milhões no primeiro semestre. O governo, por sua vez, foi ao Supremo Tribunal Federal pedir mais 12 meses para cumprir a decisão que determinou a retomada dos escalonamentos da carreira. É uma contabilidade curiosa: para pedir dinheiro aos bancos, Sergipe é um gigante; para reconhecer o direito do professor, vira uma criança procurando moedas no sofá.
A greve de 48 horas, marcada para quarta e quinta-feira, 26 e 27 de agosto, não nasceu de uma irritação de recreio. Em outubro de 2025, o STF declarou inconstitucional a legislação estadual que havia desmontado a estrutura anterior da carreira. Segundo o sindicato, o efeito da decisão é o restabelecimento dos escalonamentos de 40% a 100%, previstos na Lei Estadual nº 163/2009. O governo reconhece a existência do direito, mas pede tempo alegando risco fiscal, segurança jurídica e dificuldades administrativas. Depois de 14 anos de perdas, pedir paciência ao professor é quase uma forma burocrática de humor. A categoria aguardou mais de uma década e agora descobre que, no calendário oficial, um ano adicional parece apenas uma vírgula. Para quem governa, é prazo; para quem paga supermercado, remédio e aluguel, é salário que continua faltando.
O presidente do Sintese, professor Roberto Silva, resume o drama ao lembrar que o verdadeiro efeito devastador foi imposto às famílias do magistério, submetidas a achatamento salarial, endividamento e perda de perspectiva profissional. O sindicato calcula uma perda acumulada superior a 54% na carreira. O governo pode contestar números, metodologia e impacto financeiro, mas precisa apresentar sua própria conta de maneira completa. Quanto custará cumprir a decisão? Qual será o impacto anual? Quanto existe em caixa livre? Quanto está vinculado? Quanto o Estado recebe de aplicações financeiras? Quanto paga de juros pelos empréstimos contratados? Sem essas respostas, o discurso do risco fiscal vira aquela prova em que o aluno escreve muito para esconder que não sabe o resultado. Professor não está pedindo favor, fotografia ou homenagem no Dia do Mestre. Está exigindo uma solução transparente para um direito reconhecido judicialmente.
Há ainda uma contradição política difícil de esconder. O Estado preserva recursos aplicados e contrata crédito sob o argumento de que o custo dos financiamentos pode ser inferior ao rendimento obtido com as aplicações. A estratégia pode ser financeiramente defensável, mas exige transparência absoluta sobre taxas, prazos, destinação e riscos. O que não se sustenta é tratar a remuneração do dinheiro como prioridade técnica e a remuneração do professor como ameaça fiscal. Se há caixa, aplicações, capacidade de pagamento e espaço para novas operações de crédito, o governo deve explicar por que a carreira docente permanece na sala de espera. Dinheiro público não foi criado para ganhar musculatura eternamente no banco enquanto o servidor perde poder de compra no mercado. Aplicação financeira pode render juros; professor valorizado rende futuro. Curiosamente, apenas um desses rendimentos ensina a próxima geração.
Fábio Mitidieri precisa responder a uma pergunta simples: por que seu governo transformou os professores em adversários? Não existe vantagem administrativa, social ou eleitoral em manter guerra permanente com quem sustenta diariamente a escola pública. Professores trabalham em salas quentes, enfrentam violência, adoecimento, estruturas deficientes e cobranças que aumentam a cada novo indicador educacional. Ainda assim, são tratados como se a valorização da carreira fosse um luxo corporativo. O governador deveria abrir uma mesa pública de negociação, apresentar os cálculos da Fazenda, permitir auditoria técnica dos números e estabelecer um calendário verificável para cumprir a decisão. Governo que realmente confia nas próprias contas não precisa escondê-las atrás de expressões como “impacto devastador”. Abre a planilha, mostra o saldo e conversa com quem ensinou a fazer as contas.
A população sergipana precisa olhar para essa paralisação com profundidade, não com a preguiça de culpar o professor pela falta de aula. Quando a categoria chega à greve, quase sempre o conflito já atravessou reuniões, ofícios, audiências e promessas sem solução. Na quarta-feira, haverá ato às 8h no Calçadão da João Pessoa; na quinta, a marcha sairá às 15h30 da frente do Iate Clube em direção ao Tribunal de Justiça. A sociedade deve acompanhar, cobrar os números dos dois lados e exigir negociação séria. Defender o professor não é aderir automaticamente a qualquer cálculo sindical, mas reconhecer que educação pública não sobrevive de propaganda, empréstimo nem nota de crédito. Governador, professor não é despesa incômoda numa planilha. É quem ensina Sergipe a não repetir os mesmos erros. E, neste momento, é o próprio governo que parece precisar de recuperação.




