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Sergipe tem sede de água e fome de mudança

Sergipe chegou a um ponto em que a torneira parece compreender a política melhor do que muito gabinete. Ela abre durante a campanha, promete durante o discurso e desaparece quando o cidadão precisa tomar banho. Em Nossa Senhora do Socorro, na Grande Aracaju, no Baixo São Francisco, no Agreste e no Sertão, as reclamações sobre desabastecimento deixaram de ser episódios isolados para compor uma sensação coletiva de abandono. Água não é obra ornamental, favor administrativo nem cenário para fotografia. Água é vida. Quando falta, falta dignidade. E quando a conta chega multiplicada, com moradores relatando saltos de duzentos para quinhentos reais, surge a pergunta que nenhum comunicado técnico consegue afogar: o consumidor está pagando pela água que recebeu ou pela eficiência que lhe prometeram?

A concessão dos serviços de distribuição e esgotamento à Iguá não retirou do governador Fábio Mitidieri a responsabilidade política pelo resultado. Governo não pode privatizar o serviço e imaginar que terceirizou também a cobrança popular. A empresa assumiu a operação nos 74 municípios atendidos pela concessão, mas o Ministério Público precisou ajuizar ações civis públicas por falhas recorrentes no abastecimento de Aracaju. Houve bairros que permaneceram dias sem água, protestos e até prejuízo ao funcionamento de serviço de hemodiálise. A Iguá pode explicar tubulações, adutoras e pressões. Fábio precisa explicar por que o sergipano passou a pagar mais para receber menos. Contrato concede operação. Não concede licença para o governo lavar as mãos, sobretudo quando falta água até para isso. 

Na saúde, convém corrigir o prontuário político. Cláudio Mitidieri não é mais secretário. Deixou o cargo em 2024, e a pasta hoje é comandada por Jardel Mitermayer. A correção do nome, porém, não cura o paciente. O ex-secretário, primo do governador, foi multado pelo Tribunal de Contas da União por omissão no cumprimento de determinações relacionadas ao atendimento oncológico, ao controle das filas e à radioterapia no Huse. O Hospital do Câncer Marcelo Déda finalmente abriu em dezembro de 2025, depois de anos de espera, mas prédio inaugurado não substitui médico, medicamento, regulação nem atendimento humanizado. Na saúde, a fotografia corta a fita em segundos. A fila continua esperando depois que as autoridades vão embora. 

A segurança pública é o setor que oferece ao governo o melhor argumento, mas até esse mérito precisa ser colocado na certidão correta. O secretário é João Eloy de Menezes e sua permanência atravessa as administrações de Marcelo Déda, Jackson Barreto, Belivaldo Chagas e Fábio Mitidieri. Trata se de uma política institucional construída durante anos, com trabalho de policiais civis, militares, peritos, delegados e servidores. Fábio pode reivindicar a continuidade, mas não a invenção. Ao mesmo tempo, o deputado Georgeo Passos denuncia atrasos no pagamento da Indenização por Flexibilização Voluntária aos policiais convocados durante a folga. É curioso celebrar a tropa no palanque e esquecer a diária no contracheque. Segurança pública não se faz apenas com estatística bonita. Faz se pagando a quem enfrenta o perigo quando o restante do governo está em alguma festa. 

Nas estradas, a memória do asfalto começa a disputar espaço com a realidade dos buracos. Belivaldo entregou um ciclo expressivo de recuperação rodoviária, enquanto intervenções atuais acumulam cobranças e atrasos, como a obra entre Japoatã e Propriá, cujo prazo anunciado já foi ultrapassado. A Adutora do Leite, é justo registrar, saiu da categoria da promessa absoluta, recebeu recursos federais e entrou na fase inicial de execução. Ainda assim, sua dimensão exige vigilância, porque ordem de serviço não mata a sede de ninguém. O governo anuncia muito, celebra bastante e entrega em ritmo mais tímido. Fábio governa como mestre de cerimônias de uma festa interminável. O problema é que Sergipe não mora no camarote. Sergipe pega estrada, espera atendimento, abre a torneira e confere a conta no fim do mês.

Esse desgaste ajuda a compreender a pesquisa do INOR, realizada entre 13 e 16 de agosto, com 1.070 entrevistas presenciais em 31 municípios, margem de erro de três pontos percentuais e confiança de 95 por cento. No cenário estimulado, Valmir de Francisquinho alcançou 46,73 por cento, contra 31,59 por cento de Fábio Mitidieri. São 15,14 pontos de vantagem. Ricardo Marques apareceu com 7,76 por cento, Emanuel Cacho com 1,21, doutor Helton com 1,12 e Taty Cristina de Jesus com 0,37. No cenário espontâneo, quando o entrevistador não apresenta os nomes, Valmir marcou 39,63 por cento e Fábio 25,23. A distância permaneceu enorme, em 14,40 pontos. Não é apenas uma preferência estimulada. É uma liderança já instalada na memória do eleitor.

Pesquisa não é urna, mas também não é decoração de gabinete. Entre os votos hoje atribuídos aos seis candidatos no cenário estimulado, Valmir reúne aproximadamente 52,6 por cento. Isso não autoriza decretar vitória no primeiro turno, porque indecisos, brancos e nulos podem se redistribuir, mas revela que essa possibilidade deixou de ser conversa de comício. Tornou se risco matemático e político para o governador. O dado mais doloroso talvez seja outro: Fábio lidera a rejeição, com 30,75 por cento. Em eleições, intenção de voto mostra quem conseguiu convencer. Rejeição mostra quem perdeu o direito de ser ouvido por uma parcela do público. O governo pode contratar mais discurso. O problema é encontrar ouvido disponível.

A fala de Fábio de que Sergipe não quer um “marchante” no governo foi politicamente desastrosa porque tentou diminuir a profissão que ajudou a construir a identidade popular de Valmir. O governador quis atacar o adversário e acabou ofendendo quem acorda cedo, trabalha com as mãos e não dispõe de assessoria para transformar suor em narrativa. Valmir recebeu de presente aquilo que todo candidato de oposição deseja: a imagem do homem comum desprezado pelo poder. Palavras semelhantes às atribuídas ao governador sobre professores, banheiros e ausências domésticas precisam ser contextualizadas antes de qualquer julgamento definitivo, mas o padrão de comunicação já cobra seu preço. Ironia contra o povo costuma parecer engraçada apenas dentro do gabinete. Do lado de fora, vira voto.

Faltam 42 dias para a eleição de 4 de outubro. É tempo suficiente para mudar o quadro e curto demais para reconstruir uma relação quebrada. A pesquisa funciona agora como uma sirene para prefeitos, deputados e lideranças municipais. Muitos começarão a conversar, recalcular distâncias e verificar se ainda existe lugar no palanque de Valmir. A política sergipana poderá assistir a um pula pula com mais energia do que muito festival patrocinado pelo Estado. Carreata cheia ajuda, adesão ajuda, estrutura ajuda. Mas existe uma diferença simbólica que o eleitor percebe: acenar de cima de um carro é fácil. Descer, atravessar a multidão, ouvir reclamação e abraçar gente suada exige uma intimidade com o povo que não se compra na produtora de campanha e Fábio ainda não aprendeu.

Desde a posse de Marcelo Déda, em janeiro de 2007, até a eleição de outubro de 2026, Sergipe terá vivido quase dezenove anos e dez meses sob uma mesma linhagem política, embora nomes, partidos e alianças tenham mudado. Déda, Jackson Barreto, Belivaldo Chagas e Fábio Mitidieri compõem uma longa continuidade de poder que produziu realizações, mas também acumulou fadiga. O apoio de Fábio a Lula pode ajuda-lo em um Nordeste ainda favorável ao presidente, porém não substitui governo estadual nem apaga problemas locais. O eleitor não toma banho com aliança nacional, não dirige sobre propaganda e não recebe atendimento médico com fotografia de palanque. Sergipe não está necessariamente escolhendo entre gratidão e ingratidão. Está escolhendo entre continuar esperando e experimentar uma mudança. Quando um povo com sede começa a olhar para a urna como quem procura água, o governante deveria parar de festejar e começar a escutar.

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