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No Huse, a propaganda não consegue internar ninguém

A saúde de Sergipe acaba de receber uma daquelas fiscalizações que deveriam provocar mais do que nota oficial, reunião e fotografia de autoridade olhando para planilha. Em vídeo divulgado à sociedade, representantes do Conselho Regional de Medicina de Sergipe relataram um quadro gravíssimo no Hospital de Urgências de Sergipe Governador João Alves Filho: 105 pacientes da clínica médica aguardando vaga, cerca de 100 da clínica cirúrgica na mesma situação, 27 pessoas no velho e assustador “corredor da catástrofe”, 25 pacientes na área vermelha e casos de permanência de até 12 dias naquele setor aguardando transferência. O relato também aponta dezenas de pacientes ortopédicos sem vaga adequada após procedimentos. São números apresentados pelo CRM depois de fiscalização in loco e que transformam qualquer discussão política em algo muito menor: estamos falando de gente doente esperando uma cama.

E aí aparece o contraste que Sergipe precisa discutir. De um lado, a comunicação oficial fala em fortalecimento da rede, reorganização dos fluxos, ampliação de cirurgias e criação de estruturas de retaguarda para desafogar justamente o Huse. A própria Secretaria de Saúde informou, por exemplo, que o Hospital da Polícia Militar realizou 1.023 procedimentos ortopédicos nos primeiros sete meses de 2026 e destacou essa unidade como instrumento para melhorar o fluxo assistencial do João Alves. Também anunciou a retomada de cirurgias gerais no Hospital Regional de Nossa Senhora da Glória com o objetivo declarado de diminuir a pressão sobre o Huse. Tudo isso é positivo e merece registro. O problema é que paciente não se interna em release. Maca não nasce de postagem. E corredor lotado tem uma desagradável mania de estragar campanha publicitária.

Durante os últimos anos, o Governo apresentou investimentos e melhorias no Huse como parte importante de sua política de saúde. O ex-secretário Cláudio Mitidieri, primo do governador Fábio Mitidieri, comandou a Secretaria de Estado da Saúde e hoje aparece na disputa eleitoral de 2026 por uma vaga na Câmara dos Deputados. Nada disso autoriza transformar a fiscalização do CRM em munição eleitoral barata, mas também não permite que se trate o diagnóstico dos médicos como simples ruído inconveniente. Se a filosofia da saúde mudou, como tanto se anunciou, chegou a hora de mostrar onde essa mudança está quando um paciente permanece 12 dias numa área vermelha esperando vaga. Porque filosofia é ótima na universidade. Na emergência hospitalar, o doente prefere leito.

E o Ministério Público de Sergipe precisa olhar para esse quadro com a urgência que ele merece. Não para fazer espetáculo, mas para perguntar o básico: quantos pacientes aguardam atualmente transferência, qual é o tempo médio de permanência nas áreas de emergência, qual é a capacidade real de leitos, por que as estruturas de retaguarda não estão absorvendo a demanda e quais providências concretas serão adotadas depois da fiscalização do CRM. O Governo tem direito de apresentar sua versão, explicar os números e mostrar as medidas já tomadas. Mas a sociedade também tem o direito de confrontar discurso com realidade. Se a própria gestão estadual afirma que vem ampliando capacidade e descentralizando atendimentos justamente para reduzir a pressão sobre o Huse, a fotografia apresentada pelo Conselho de Medicina exige explicação objetiva sobre porque a superlotação continua aparecendo.

Saúde não admite truque de iluminação. Não existe filtro bonito para corredor hospitalar cheio. O cidadão de Nossa Senhora da Glória, Itabaiana, Lagarto, Estância, Propriá ou Aracaju que chega ao João Alves sentindo dor não quer saber quantas campanhas institucionais foram produzidas nem quantas vezes alguém disse que a saúde avançou. Ele quer ser atendido, internado, operado e voltar vivo para casa. É aí que toda propaganda encontra seu teste definitivo. Se o CRM entra no maior hospital público de Sergipe e sai chamando atenção para pacientes amontoados, falta de vagas e permanências prolongadas em setores de emergência, não cabe responder com slogan. Cabe responder com leito, equipe, transferência, gestão e solução. Porque propaganda aceita maquiagem. Paciente não. E com saúde, definitivamente, não se brinca.

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