O Brasil viveu, em menos de 24 horas, uma dessas despedidas que parecem ter sido escritas por um autor de novela decidido a fazer o público chorar. Primeiro partiu Laura Cardoso, aos 98 anos. No dia seguinte, foi Glória Menezes, aos 91. Duas mulheres que ajudaram a ensinar o brasileiro a rir, sofrer, amar, odiar vilões e esperar ansiosamente pelo capítulo de amanhã. Laura veio praticamente junto com a própria televisão: começou no rádio, estreou na TV em 1952 e atravessou mais de sete décadas de dramaturgia, passando por Mulheres de Areia, A Viagem, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, O Outro Lado do Paraíso e tantas outras histórias. Sua última novela foi A Dona do Pedaço, em 2019, mas ainda em 2025, já aos 98 anos, estava trabalhando, filmando Dona Rosinha e participando da mensagem de fim de ano da Globo. Laura não envelheceu para a arte. A arte é que teve o privilégio de envelhecer ao lado dela.
Glória Menezes carregou outra espécie de majestade. Nascida Nilcedes Soares de Magalhães, em Pelotas, tornou-se simplesmente Glória, um nome que acabou cabendo perfeitamente em sua história. Participou de O Pagador de Promessas, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, e protagonizou, ao lado de Tarcísio Meira, 2-5499 Ocupado, em 1963, considerada a primeira telenovela diária brasileira. Depois vieram Sangue e Areia, Irmãos Coragem, Pai Herói, Guerra dos Sexos, Brega & Chique, Rainha da Sucata, Torre de Babel, Senhora do Destino, A Favorita e dezenas de outras. Sua última novela foi Totalmente Demais, entre 2015 e 2016. E havia ainda uma história paralela maior do que muitas novelas: os quase 60 anos de amor e parceria com Tarcísio Meira, que morreu em 2021. Talvez por isso seja impossível não imaginar que, em algum lugar, ontem tenha havido um reencontro longamente esperado.
E há uma coincidência linda na trajetória dessas duas senhoras. Laura e Glória estavam lá quando a televisão brasileira ainda aprendia a andar. Trabalharam juntas em Um Lugar ao Sol, em 1959, e Há Sempre o Amanhã, em 1960. Décadas depois voltaram a dividir novelas como Rainha da Sucata e Senhora do Destino. Elas conheceram televisão ao vivo, cenário improvisado, texto decorado às pressas, preto e branco, videotape, televisão em cores, grandes superproduções, internet e streaming. Viram o Brasil mudar diante das câmeras sem jamais perder aquilo que nenhuma tecnologia fabrica: presença. Laura conseguia transformar uma senhora aparentemente comum numa personagem inesquecível. Glória podia ser sofisticada, trágica, engraçada, vilã ou heroína. As duas tinham aquele talento raro de desaparecer para que a personagem aparecesse.
E permita-nos agora uma licença poética, porque certas despedidas precisam de poesia. Imagino que o departamento celestial de dramaturgia tenha ficado movimentado. Manoel Carlos, que morreu neste ano aos 92 anos, talvez já esteja escrevendo uma nova Helena. Benedito Ruy Barbosa, que também partiu em 2026, aos 95, deve estar preparando alguma fazenda cercada de rios, bois e amores impossíveis. Juca de Oliveira, ator e dramaturgo que morreu em março, pode estar ensaiando as primeiras falas, enquanto Dennis Carvalho, que morreu em fevereiro, organiza luz, câmera e marcação de cena. E Francisco Cuoco, que nos deixou em 2025, talvez já tenha separado um lugar no palco. De repente a porta se abre. Laura entra primeiro. Um dia depois chega Glória. E lá no fundo deve estar Tarcísio Meira, esperando há cinco anos. Se o céu permitir aplausos, ontem deve ter sido barulhento.
O Brasil fica mais silencioso aqui embaixo. Mas talvez o palco tenha apenas mudado de endereço. Laura Cardoso e Glória Menezes não levaram consigo somente personagens: deixaram pedaços da memória afetiva de milhões de brasileiros. Foram mães, avós, amantes, vilãs, mulheres sofridas, engraçadas, poderosas e humildes dentro de nossas salas durante gerações. Agora podemos imaginar as duas chegando juntas ao maior teatro de todos, encontrando velhos amigos, autores, diretores e parceiros que partiram antes. As luzes diminuem. Tarcísio se levanta. Cuoco sorri. Dennis manda abrir a cortina. Maneco entrega o texto. Benedito prepara o cenário. E Laura e Glória entram em cena outra vez. Aqui embaixo nós choramos. Lá em cima, queremos acreditar, começa o próximo capítulo.




