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O Conto dos Garcias – A História de um Clã Injustiçado

Era fim de tarde em Aracaju. O sol descia lentamente sobre o Rio Sergipe, tingindo o céu de cores quentes, como se também ele quisesse ouvir a minha memória de velho contador de histórias. Sempre estive cercado por jovens atentos. Ajeitei os óculos, pigarreei e disse em voz alta: “Bateu a saudade deles… meus alunos.”

E lá, do edifício São Carlos, o ninho que escolhi para morar, tenho todos os dias o privilégio de contemplar essa vista que não é apenas paisagem, mas poesia que se renova a cada amanhecer e se despede a cada pôr do sol. Olhei para o horizonte e comecei: “— Meus amigos, a juventude é sempre a mesma. Ontem, hoje ou amanhã, ela carrega consigo a ilusão de que pode mudar o mundo em uma noite.”

Então abri a janela do tempo. Contei-lhes sobre 1917, como se tivesse estado lá. A Primeira Guerra Mundial devastava a Europa, e entre trincheiras e canhões um obscuro soldado chamado Hitler rastejava na lama da história. Poucos imaginavam que aquele rapaz de bigode ralo, perdido entre explosões e fumaça, carregava dentro de si a semente de uma doutrina que arrastaria nações para a escuridão. Terminada a guerra, o veneno do nazismo não morreu. Ficaram seus admiradores, os que ainda sonhavam com a força bruta como destino.

Do outro lado do Atlântico, no Brasil, um gaúcho ambicioso chamado Getúlio Vargas aproveitou o espírito turbulento da época. Não chegou ao poder pelo voto, mas pela força, pela esperteza, pelo velho jogo da política à bala e à baioneta. E ali ficou, grudado ao trono como hera em muro antigo, por longos quinze anos.

A Segunda Guerra Mundial trouxe novamente o espectro do mesmo Hitler, agora não mais soldado, mas Führer. O planeta incendiava-se outra vez. E, dessa vez, o fogo não ficou restrito à Europa: alcançou o litoral de Sergipe. Eu me lembro bem das histórias, submarinos alemães surgindo das profundezas como monstros invisíveis e afundando navios mercantes brasileiros em nossas costas. Sergipe, pequeno em território, grande em dor, foi marcado a ferro no mapa da guerra. Foi o bastante para que Getúlio mudasse de lado. O homem que antes flertara com os regimes autoritários descobriu no pragmatismo sua salvação. Abraçou os Estados Unidos, que despejaram dólares e obras no Brasil: bases militares em Natal, construções estratégicas, promessas de modernidade.

Mas eu não quero falar apenas de guerra. Fecho os olhos e, como se recuasse meio século, digo: — Ah, os anos 50… Foi o meu tempo de estudante. Primeiro no Colégio do Salvador, depois no Ateneu Sergipense. E como brilhava aquele Ateneu! Mais que um colégio, era um templo. As carteiras, ainda que de madeira gasta, sustentavam sonhos mais altos que os prédios de hoje. Ali ensinavam gigantes: Maria Tetis Nunes, a professora que transformava lições em revelações; Ofenícia Freire, de firmeza e ternura; José Olino, farol de sabedoria; e, pasmem, até governadores desciam do palácio para dar aula, como José Hollenberg Leite, que deixava o trono para se tornar mestre entre nós, simples alunos. O Ateneu valia por uma universidade inteira. Quem estudava lá carregava nas costas um diploma da vida.

Foi nesse ambiente de efervescência que surgiu uma família peculiar: os “Garcias”. Eles não tinham fortunas, não possuíam latifúndios, não controlavam bancos. Mas possuíam algo que dinheiro algum compra: inteligência, cultura e caráter. Luiz Garcia, o patriarca, dizia com ironia e orgulho uma frase que ecoava pelos corredores: “Nós, Garcia, somos todos nobres, cultos e pobres.” Era um brasão paradoxal: a nobreza estava no espírito, a riqueza no saber, e a pobreza, essa sim, era nos bolsos. Mas ser pobre nunca foi vergonha para eles. Vergonha, aprendi cedo, é ser rico de bens e miserável de caráter.

Cada filho seguiu uma estrada distinta, mas todos deixaram marcas profundas. José Garcia, aventureiro da política, alcançou o posto de governador de Mato Grosso. Antônio Garcia Filho, médico de mãos firmes e coração generoso, tornou-se referência da medicina. Robério Garcia, o apaixonado pelo esporte, levantou o futebol sergipano como bandeira de povo. Presidiu a Federação Sergipana de Futebol, organizou campeonatos, formou atletas. Era, como diziam, tendencioso ao comunismo, mas sobretudo comunista era na paixão pelo esporte coletivo.

E havia, entre todos, uma estrela maior: Gilton Garcia. Se houvesse justiça imediata no mundo, seu nome estaria esculpido em pedra. Mas a História gosta de ironias, e ele foi primeiro injustiçado, depois consagrado. Advogado brilhante, escritor incansável, orador inflamado, Gilton carregava nas mãos não apenas códigos, mas destinos. Tornou-se presidente da Ordem dos Advogados de Sergipe e mudou os rumos da instituição. Mas em 1964, quando o país mergulhou no vendaval da Revolução, foi preso. Acusado de comunismo, como tantos que ousavam pensar. Ali provaram da forma mais cruel: não bastava ser honesto, era preciso também ser obediente. E Gilton não era. Na prisão, não se dobrou. Saiu maior do que entrou. Não respondeu com rancor, mas com livros. Não devolveu ódio, mas sabedoria. A toga voltou a ser sua armadura, a palavra, sua espada. E venceu, não pela força, mas pela memória.

Recordo também que o comunismo encantava os jovens como um perfume adocicado que logo se torna enjoativo. Cito pensadores franceses e romenos que foram à Rússia e voltaram decepcionados. Paul Bourguignon e Pané Strade viram de perto a realidade: o paraíso prometido era de barro rachado. Escreveram, denunciaram, e se voltaram para a democracia. Com todos os seus defeitos, continuo a acreditar: ainda é o melhor regime.

E então, com voz firme, concluo: Chamaram os “Garcias” de comunistas, de agitadores, de perigosos. Mas quem folheia as páginas da História sabe: eles eram, na verdade, cultos, nobres e pobres. Pobres de bens, ricos de honra. E se tivesse de pronunciar um único nome, apenas um, eu escolheria Gilton Garcia, advogado, escritor, presidente da Ordem, injustiçado pela força, coroado pela memória. Meu conto não termina como quem fecha um livro, mas como quem acende uma vela na noite: para lembrar que a justiça pode tardar, mas nunca deixa de chegar.

Respostas de 3

  1. Olhos abertos ou ouvidos descansados são necessários para degustar as olfativas palavras Garcilianas, tateando as hi(e)stórias sempre carregadas de emoção e ensinamentos..

  2. Meus padrinhos, Luís Garcia/Ninota, Carlos Garcia e Marlene Garcia. De Antonio Garcia/Helena , herdei meu nome, Antonio, agregando ainda o Carlos, do padrinho.
    De Luís Garcia, me estimulou aos estudos: mensalmente, levava o boletim de notas à sua casa, na rua Arauá, ele lia, seríssimo, comentava “precisa melhorar nessa disciplina”, mas me gratificava pelas demais matérias. E melhora nas notas, no mês seguinte.
    O Carlos Garcia, quando vinha a Aracaju, me pegava de carro (um luxo, para mim) e me levava à Cinelândia para o seu sorvete predileto, o de mangaba.
    Marlene, sempre a visitava na sua casa, no bairro S.José, uma miss em beleza e finesse.
    E frequentava, com meu pai, a casa de “tia” Ninota, na rua Itaporanga; e a casa de Dr AntônioGarcia.
    Resta-me, hoje, a companhia de Gilton Garcia, um “lord”, a quem o chamo de “primo”. Um verdadeiro lord. E a elegância dos “garcias”

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