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Seu Marcos, o “bonitão” que fazia a vida parecer mais leve

Existem pessoas cuja importância não cabe em currículo, patrimônio ou cargo público. Seu Marcos era uma delas. Sua grande obra foi a maneira como tratou as pessoas. Com olhar sereno, sorriso fácil e uma bondade que não precisava de anúncio, ele atravessou a vida distribuindo amizade, acolhimento e respeito. Estou, por deveras, muito triste com sua partida. Escrever sobre ele hoje é procurar palavras enquanto o coração insiste em responder com saudade.

Para mim, seu Marcos permanecerá sendo aquele homem que, ao me encontrar, abria os braços e perguntava: “Bonitão, como é que vai você?”. Era assim que ele me chamava. Bastava ouvir aquela frase para saber que começaria uma conversa boa, uma brincadeira ou simplesmente um encontro capaz de melhorar o dia. Seu Marcos era amigo, companheiro, bonachão e dono de uma simplicidade rara, daquela que não significa falta de grandeza, mas exatamente o contrário.

Nunca o vi levantar a voz para ninguém. Nem para Sheila, a filha que tanto amava, muito menos para dona Neila, sua companheira de uma vida inteira. Ficará guardado na memória de todos o seu chamado carinhoso: “Neila! Ô, Neila!”. E logo vinha ela, entre o afeto e a costumeira preocupação: “Diga, Marcos. Ave Maria, o que você quer, meu filho?”. Parecia uma cena pequena da rotina familiar. Hoje, porém, adquire a dimensão das grandes histórias de amor, porque revela a cumplicidade construída durante toda uma vida.

A casa e a fazenda de seu Marcos sempre tiveram porteira aberta, mesa farta e coração disponível. Os Natais, os São Joões, as conversas demoradas, as brincadeiras e as reuniões de família formaram um patrimônio que inventário algum consegue medir. Ele fazia cada visitante sentir que também pertencia àquela casa. Foi um grande marido, um superpai, um superavô, um sogro querido e um amigo daqueles que a vida oferece poucas vezes e leva cedo demais, qualquer que seja a idade.

Tive a felicidade de viajar diversas vezes com seu Marcos. Ao lado dele, testemunhei um verdadeiro espetáculo de humanidade. Abraçava um, conversava com outro, contava uma história, às vezes a mesma,  resolvia um problema e ajudava quem estivesse precisando. Não havia pose, distância ou estrelismo. Havia Marcos, ou Zé de Almeida como donas Neila o chamava, inteiro e verdadeiro. Meu pai também gostava muito dele e certa vez resumiu sua força numa frase inesquecível: “Seu Marcos, o senhor é como um jacarandá: enverga, mas não quebra”. Ele se acabava de rir. E ria porque talvez reconhecesse naquela imagem a própria caminhada. Envergou diante das dificuldades, mas nunca permitiu que a vida quebrasse sua alegria, sua dignidade ou sua capacidade de amar.

Com sua partida, dona Neila, Sheila, os netos, o genro João Batista, os demais familiares e uma multidão de amigos passam a conviver com um silêncio difícil de preencher. Lagarto perdeu um grande homem. Sergipe perdeu um grande homem. Eu perdi um amigo querido e a voz que tantas vezes me recebeu com aquele inesquecível “bonitão”. Fica uma tristeza profunda, mas permanece também a gratidão por ter convivido com alguém tão especial. Seu Marcos partiu, mas continuará vivo em cada história contada, em cada lembrança daquela casa cheia e em cada sorriso provocado por seu nome. Homens assim deixam de estar entre nós, mas jamais saem de dentro de nós.

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