O bronze conquistado por Wendal Carmo e Leonardo Miazzo no Prêmio INAC de Integridade representa mais do que uma distinção profissional. É o reconhecimento de um jornalismo que saiu da arquibancada, entrou no processo administrativo e voltou carregando documentos. A reportagem “Liberação de água para haras da primeira-dama de Sergipe teve ajuda de servidor estatal” chamou atenção nacional porque tratou um assunto local com método, responsabilidade e coragem. Não houve necessidade de megafone, teoria conspiratória ou primo de autoridade mandando áudio escondido. Houve Lei de Acesso à Informação, análise documental e disposição para formular perguntas. Quando o repórter troca o boato pelo papel timbrado, até a burocracia começa a suar.
A força do título está em apresentar, numa única frase, os elementos que justificam o interesse público: uma autorização para utilização de água, uma propriedade ligada à primeira-dama e a participação de um servidor de empresa estatal. Isso não equivale a declarar crime, favorecimento ou qualquer responsabilidade da família Mitidieri. A reportagem não substitui investigação administrativa, muito menos sentença judicial. Seu papel foi revelar como o procedimento aconteceu e apresentar os personagens que aparecem nos documentos. É como abrir a porta de uma sala onde todos afirmam que está tudo em ordem. Pode realmente estar, mas, depois que a luz foi acesa, não faz sentido pedir ao jornalista que apague para não incomodar os móveis.
A matéria ganha consistência ao mostrar que o engenheiro Luiz Gonzaga Luna Reis, servidor da Coderse desde 1983 e especialista em irrigação e recursos hídricos, atuou como responsável técnico e recebeu procuração para representar a empresa interessada no procedimento. O próprio profissional afirmou ter prestado um serviço particular e disse não enxergar conflito de interesses. Essa versão precisa ser respeitada, assim como devem ser consideradas as explicações apresentadas por Érica Mitidieri, que negou qualquer favorecimento. O mérito dos jornalistas está justamente em não depender de adjetivos: eles localizaram requerimentos, procurações, e-mails e registros técnicos. Documento tem uma qualidade maravilhosa para o jornalismo: não grita, não faz discurso e não pede voto, mas costuma falar durante muito tempo.
Outro acerto foi traduzir para o público o volume autorizado de aproximadamente 39,2 mil metros cúbicos anuais, comparando-o a cerca de 16 piscinas olímpicas. A comparação não afirma que todo esse volume tenha sido efetivamente captado nem sugere utilização irregular. Ela apenas torna compreensível um número que, apresentado sozinho, faria muita gente abandonar a leitura antes da vírgula. Ao acompanhar a solicitação inicial, a concessão da outorga e sua posterior renovação, a reportagem conduziu o leitor pelo encanamento burocrático inteiro. E convenhamos: seguir e-mails, portarias e exigências administrativas até o fim exige mais fôlego do que atravessar as 16 piscinas sem parar.
O prêmio recebido em São Paulo não condena a primeira-dama, o governador, o engenheiro ou qualquer outro personagem mencionado. Ele reconhece a relevância pública da pauta, a qualidade da investigação e a importância de um jornalismo que sabe perguntar sem transformar suspeita em veredicto. Wendal Carmo e Leonardo Miazzo merecem ser celebrados porque mostraram que a imprensa sergipana pode produzir trabalho de alcance nacional com documentos, equilíbrio e independência. No fim, a água seguiu seu curso, as pessoas citadas apresentaram suas versões e o jornalismo cumpriu sua missão. Quando uma reportagem consegue iluminar a administração pública sem incendiar reputações, ela não apenas merece um troféu. Merece respeito, leitura e aplauso.




