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Sukita abraça o Saruê e deixa o Guaxinim de orelha em pé

Sukita é daqueles políticos capazes de fazer o GPS pedir exoneração por cansaço. Sai de casa para apoiar um candidato, atravessa dois palanques, toma café com um terceiro e pode voltar anunciando um quarto como amigo de infância. Nos últimos meses, conversou com gente de quase todos os quadrantes da bússola eleitoral e chegou a anunciar Zezinho Sobral para deputado estadual. Agora, porém, bateu o martelo em Carlinhos de Brejo Grande, o Saruê. Quando Sukita bate o martelo, é prudente conferir se ele não deixou outro martelo escondido no bolso. Mas, desta vez, a escolha tem cabeça, tronco, membros e até certidão de nascimento política: o apoio foi formalmente anunciado e repercutido publicamente.  

Zezinho Sobral tem peso dentro do Governo do Estado. O problema de Sukita mora justamente aí. Em Capela, o governo tem lado, endereço, telefone e aliados, e entre eles está Cristiano Cavalcante, o Guaxinim, um dos maiores adversários políticos do ex-prefeito. Apoiar Zezinho seria subir num palanque estadual que, por tabela, também alimentaria o campo político que Sukita precisa enfrentar dentro de casa. Seria como comprar o bacamarte, entregar a pólvora ao adversário e ainda perguntar se ele deseja que Sukita risque o fósforo. Ninguém pode acusar Sukita de ser excessivamente previsível, mas também não precisava disputar o prêmio de melhor padrinho do próprio rival.

Carlinhos de Brejo Grande oferece outra mercadoria política, com um tempero conhecido desde que o primeiro político percebeu que o inimigo do seu inimigo podia ganhar cadeira, café e até pedaço de bolo. O Saruê e o Guaxinim não estão disputando apenas votos: estão demarcando território no Baixo São Francisco como dois pesos pesados brigando pelo último prato do almoço. Cristiano já acusou Carlinhos publicamente de transferência indevida de títulos eleitorais e de “sangramento”dos cofres de Brejo Grande. Carlinhos negou as acusações e chamou parte delas de inverdade e leviandade. Mais recentemente, Cristiano declarou que “não tira o chapéu” para a gestão do ex-prefeito, provocando resposta pública dos aliados de Carlinhos. Ou seja: isso não é divergência política; é uma temporada completa, com reprise, capítulo especial e trilha sonora de suspense.  

Sukita, portanto, não escolheu apenas um candidato a deputado estadual. Comprou ingresso para a primeira fila de uma briga que já chega com histórico, apelidos e munição verbal. Carlinhos foi prefeito de Brejo Grande por três vezes e aparece na disputa estadual pelo PSD. Não desembarca em Capela com a obrigação de passar lustra-móveis no gabinete de Cristiano nem de pedir licença ao Palácio para espirrar. Sukita pode colocá-lo na rua, pedir voto, fazer oposição e continuar falando alto sem precisar telefonar para saber se o governador deixou. Se o Guaxinim incomoda Sukita e também enfrenta o Saruê, a conta ficou tão simples que nem precisou de calculadora, bússola ou mapa astral.  

Em Capela, até os bacamarteiros estão soltando fogos. E haja pólvora, porque agora se atira para todos os lados: o Guaxinim mira o Saruê, o Saruê responde ao Guaxinim e Sukita, no meio da mata, aparece sorrindo como guia turístico de safári eleitoral. A diferença é que, nessa caçada, ninguém quer acertar o bicho; todo mundo quer capturar o voto. Se a disputa esquentar mais um pouco, será necessário chamar o Ibama, a Justiça Eleitoral e alguém da comissão organizadora dos festejos juninos. O Baixo São Francisco virou uma grande mata política, enquanto Capela fornece a arquibancada, os rojões e o comentário maldoso na calçada.

Há ainda uma ironia saborosa: Carlinhos conversa com grupos que não seriam exatamente convidados para o almoço de domingo na casa de Sukita. A política capelense conseguiu produzir a façanha de colocar adversários pedindo voto para o mesmo candidato, embora alguns deles provavelmente não consigam permanecer quinze minutos na mesma sala sem que alguém esconda os copos. Para Carlinhos, pouco importa. Urna não pergunta se o voto veio acompanhado de amizade, raiva, vingança ou pirraça. Depois de contado, todo voto perde o sobrenome, toma banho e fica com a mesma aparência.

A avaliação estratégica, sem representar preferência por candidato, é que a decisão guarda coerência com o objetivo político atribuído a Sukita: apoiar um nome para deputado estadual sem fortalecer diretamente o grupo de Cristiano em Capela. Ele mantém Márcio Macêdo na disputa federal, aproxima Carlinhos na estadual e preserva espaço para enfrentar o Guaxinim no território onde sua batalha principal será travada. Sukita continua sendo Sukita: imprevisível, folclórico e capaz de transformar uma reunião de vinte minutos numa série com oito episódios. Mas, desta vez, por trás do espetáculo apareceu raciocínio. O homem entrou na mata, examinou as pegadas, abraçou o Saruê e concluiu que era melhor tê-lo ao lado do que deixar o Guaxinim passeando sozinho.

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