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Na sabatina de Lula, até Bolsonaro trabalhou como assessor de imprensa

Leitor, sente-se com cuidado, porque a entrevista de Lula à TV Globo deixou mais buracos do que estrada abandonada em período eleitoral. Renata Vasconcellos e César Tralli perguntaram sobre investigações, economia, dívida pública, INSS, Banco Master e Correios. Lula respondeu com Bolsonaro, perseguição, amizade antiga, imprensa injusta e uma confiança quase religiosa na própria versão. Foi um espetáculo raro: perguntava-se sobre o presente, ele respondia com o passado; cobrava-se um número, ele entregava uma lembrança; mencionava-se um inquérito, ele abria imediatamente o guarda-chuva da perseguição. O presidente entrou no estúdio preparado para uma entrevista de emprego e descobriu, ao vivo, que a vaga era para prestação de contas. A partir daí, o teleprompter emocional travou e o Brasil assistiu a um homem tentando apagar sete incêndios com um copo de saliva.

O caso Lulinha foi o momento em que a entrevista deixou de ser ruim e passou a flertar com o desastre. Lula afirmou ter certeza da inocência do filho, embora Fábio Luís seja alvo de investigações da Polícia Federal e ainda não exista conclusão capaz de autorizar tamanha certeza. Para o presidente, a investigação deve seguir livremente, desde que chegue ao resultado que ele já anunciou na televisão. É uma modalidade moderna de independência: a polícia investiga, o Ministério Público analisa, a Justiça julga e o pai divulga antecipadamente o gabarito. Quando apareceram os nomes de Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, e da lobista Roberta Luchsinger, o cenário ficou ainda mais desconfortável. Lula reconheceu que a relação financeira entre seu ex-chefe de gabinete e Roberta era “totalmente errada”, mas não explicou como gente tão próxima do poder circulava nesse ambiente sem despertar nenhuma campainha no Palácio. No governo Lula, aparentemente, a porta do Planalto tem detector de metais, mas ainda não instalaram detector de lobistas.

Foi então que Lula chamou Roberta de “pilantra” e afirmou nunca tê-la visto. Horas depois, fotografias dos dois juntos voltaram a circular nas redes sociais. Talvez o presidente tenha desenvolvido uma memória seletiva de última geração: reconhece qualquer trabalhador encontrado há quarenta anos numa fábrica, mas não identifica quem aparece ao seu lado em fotografia recente. E há algo especialmente revelador na escolha das palavras. Para o filho investigado, carinho e certeza de inocência; para o amigo Marcola, decepção moderada; para Jaques Wagner, atestado presidencial de honestidade; para a mulher que virou problema, “pilantra”. A misoginia não precisa chegar usando crachá: às vezes aparece justamente quando o homem poderoso reserva aos companheiros o benefício da dúvida e à mulher o insulto televisionado. Lula tentou desqualificar Roberta, mas acabou desqualificando a própria serenidade. Saiu para dar uma resposta e entregou à oposição uma temporada completa.

No Banco Master, o presidente também confundiu amizade com auditoria. Questionado sobre Jaques Wagner e os fatos investigados pela Polícia Federal, Lula declarou ter consciência de que o senador é honesto. Bonito para um cartão de aniversário, insuficiente para uma investigação policial. O eleitor queria fatos, mas recebeu uma homenagem de amizade com quatro décadas de duração. Se confiança pessoal encerrasse investigação, delegacia poderia ser substituída por grupo de WhatsApp da família. Na fraude do INSS, Lula recorreu ao esporte favorito de Brasília: o arremesso de culpa para o governo anterior. É indispensável investigar quando o esquema começou, mas também é obrigatório explicar por que continuou, cresceu e alcançou aposentados durante sua administração. Ressarcir a vítima é necessário; explicar quem falhou e punir os responsáveis também. Devolver o dinheiro depois do assalto não transforma o assalto em programa social.

Na dívida pública, Lula falou como quem tenta negociar a conta do restaurante elogiando o tempero. Nos Correios, prometeu recuperação, afastou a privatização e não apresentou um caminho suficientemente convincente para retirar a estatal da crise. Faltaram números, prazos, cortes, metas e responsáveis; sobraram confiança, discurso e aquele otimismo que não aparece no balanço contábil. Ao final, o presidente reclamou que se sentia diante do Ministério Público. E queria sentir-se onde, leitor? Num programa de culinária? Lula disputava a Presidência, carregava problemas graves no governo e tinha diante de si jornalistas, não animadores de auditório. A entrevista foi um desastre porque mostrou um candidato capaz de contar a história do Brasil, mas incapaz de prestar contas do próprio capítulo. Quando as perguntas apertaram, Lula procurou Bolsonaro, a imprensa, a perseguição e os amigos. Encontrou todos. Só não encontrou as respostas.

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