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SergipeTieri: e se o Estado inteiro couber numa família?

Leitor, respire antes de entrar nesta história. O que segue não é denúncia, sentença nem anúncio oficial. É uma projeção política. Um exercício construído a partir dos personagens que já ocupam o palco, das candidaturas confirmadas, dos cargos distribuídos e dos rumores que a imprensa registra. Projeção não é realidade consumada. É aquela sombra que aparece na parede antes de alguém atravessar a porta.

A cadeira do Tribunal de Contas ainda não está vaga. O conselheiro Flávio Conceição afirmou que permanecerá no cargo até sua aposentadoria compulsória, prevista para 5 de janeiro de 2027. Não existe anúncio oficial de que Maísa Mitidieri ou Érica Mitidieri será indicada. Também não há declaração pública de Érica reivindicando a vaga. O que existe é um cenário político que permite a pergunta. E quando uma pergunta aparentemente absurda começa a parecer possível, talvez o problema não esteja na pergunta. Esteja no ambiente que a tornou plausível.  

Imaginemos, portanto. Fábio Mitidieri conquista a reeleição. A vaga surge em janeiro de 2027. O grupo governista inicia a articulação. O nome de Maísa, irmã do governador, volta a circular. Logo depois, aparece Érica, esposa do governador, fortalecida pela presença na campanha, pela Secretaria da Assistência Social e pelo protagonismo que conquistou dentro do governo. Érica ou Maísa. Maísa ou Érica. De mulher para mulher, com todo o respeito às duas, mas sempre de Mitidieri para Mitidieri.

É nesse ponto que a política encontra a psicologia. O poder raramente começa disputando cargos. Primeiro, disputa atenção. Depois, reconhecimento. Por último, permanência. A irmã pode representar a história familiar. A esposa pode simbolizar o projeto construído ao lado do marido. Uma carrega o sangue. A outra compartilha a vida, o governo e a caminhada. No meio das duas estaria Fábio, não apenas como irmão e marido, mas como governador, líder político e provável condutor da sucessão.

Seria uma escolha institucional atravessada por afetos muito humanos. E afetos são lindos na mesa do almoço, mas perigosos quando começam a escolher quem fiscalizará as contas públicas. O Estado não pode depender de quem recebe mais carinho no coração do governador, de quem chegou primeiro à família ou de quem conquistou maior espaço na campanha. Tribunal de Contas não é prova de amor. Muito menos presente de bodas.

Agora puxe a câmera para trás, leitor. A fotografia fica maior. Fábio é candidato à reeleição. Maísa busca renovar o mandato de deputada estadual. Cláudio Mitidieri disputa uma cadeira de deputado federal. Luiz Mitidieri, pai do governador, assumiu a Casa Civil. Érica permanece à frente da Assistência Social. Jorginho Araújo, amigo de confiança de Fábio e antigo chefe da Casa Civil, tenta renovar seu mandato. A convenção partidária confirmou Maísa e Jorginho na disputa pela Assembleia, enquanto Cláudio aparece oficialmente na corrida à Câmara Federal.  

Nenhum desses fatos, isoladamente, comprova ilegalidade. É preciso repetir isso com a serenidade de quem respeita a verdade. Mas, juntos, eles desenham uma concentração que não pode ser tratada como simples coincidência de sobrenomes talentosos. É muita vocação pública florescendo no mesmo quintal. Se aparecer mais um candidato na família, talvez o TRE precise instalar uma urna na sala de jantar.

O governo parece ganhar pernas, braços e voz própria. Ele acorda cedo, veste a camisa da campanha, chama os parentes e sai dizendo que representa Sergipe inteiro. O problema é que, quando volta para casa, quase todos os lugares importantes da mesa parecem reservados. É o SergipeTieri, uma figura política imaginária com cabeça de governo, braços de campanha, coração de família e uma carteira cuidadosamente abastecida pelo contribuinte.

E onde está o sergipano nessa fotografia? Está um pouco atrás. Quase fora do enquadramento. É ele quem espera o ônibus, enfrenta a fila do posto, procura emprego, reclama da falta e da conta da água e faz malabarismo para comprar carne. Enquanto uma família discute projetos, candidaturas e futuras posições de poder, o povo discute se paga o gás ou a energia. Para uns, o futuro é uma cadeira no Tribunal. Para outros, é torcer para encontrar uma cadeira vazia no ônibus.

Talvez seja por isso que a hipótese de uma escolha entre Érica e Maísa provoque tanto desconforto. Não necessariamente por causa delas. As duas podem possuir qualidades, experiência e capacidade. O incômodo nasce da sensação de que Sergipe foi ficando pequeno demais para tanta influência familiar. Como se o Estado inteiro pudesse ser administrado por uma única árvore genealógica, enquanto os demais sergipanos fossem autorizados apenas a regar o jardim e catar os restos das folhas.

O poder familiar produz ainda uma armadilha psicológica muito eficiente. Ele se apresenta como confiança. O pai é chamado porque possui experiência. A esposa permanece porque trabalha. A irmã concorre porque tem votos. O primo disputa porque conhece a área. O amigo entra porque é leal. Cada explicação, vista separadamente, parece razoável. O problema aparece quando juntamos todas. A exceção vira método. A confiança vira sistema. E o Estado começa a se comportar como extensão afetiva de um sobrenome.

Se Fábio for reeleito e se a vaga do Tribunal surgir, Sergipe terá o direito de exigir critérios públicos, qualificação demonstrada, debate transparente e absoluta independência. Antes de perguntar se será Érica ou Maísa, será preciso perguntar por que a escolha deveria circular entre pessoas tão próximas de quem será fiscalizado. A pergunta não condena ninguém. Apenas impede que a normalidade seja costurada silenciosamente até parecer inevitável.

Porque o Tribunal de Contas existe para vigiar o governo, não para receber alguém indicado pelos laços emocionais do governante. Quem fiscaliza precisa conservar distância suficiente para dizer não. Parente pode amar, aconselhar e até discordar. Mas colocar a estrutura de controle dentro do círculo familiar exige do cidadão uma fé que nenhuma democracia deveria cobrar.

Esta é apenas uma projeção. Pode não acontecer. Érica pode jamais desejar a vaga. Maísa pode seguir exclusivamente na vida parlamentar. O governador pode escolher um nome técnico e independente. Mas uma democracia madura não espera o fato acontecer para começar a pensar. Ela observa os sinais, compara os movimentos e pergunta antes que a porta se feche.

Sergipe não é herança, empresa familiar nem retrato de aniversário. Sergipe sente fome, trabalha, paga imposto, vota e carrega nas costas cada decisão tomada nos gabinetes. O estado tem pai, mãe e dono apenas na poesia. Na política, pertence aos sergipanos. Ou deveria pertencer. E aí, leitor, o futuro será do Sergipe dos sergipanos ou do SergipeTieri? O que você acha de tudo isso?

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