A Globo acendeu as mesmas luzes, ligou as mesmas câmeras e colocou Lula e Flávio Bolsonaro diante do mesmo desconforto: perguntas que não vieram acompanhadas de aplausos. Foi aí que a diferença apareceu sem maquiagem. Flávio entrou sabendo que encontraria uma sabatina, manteve a serenidade e procurou conversar diretamente com o eleitor. Lula chegou com três mandatos presidenciais na bagagem, mas reagiu como se tivesse descoberto, ao vivo, que jornalista também pergunta. Enquanto Flávio administrou a pressão, Lula administrou o mau humor. Um apresentou candidatura; o outro abriu uma filial do muro das lamentações dentro do estúdio.
Flávio não respondeu tudo perfeitamente. O financiamento de Dark Horse, por exemplo, ainda exige explicações mais completas. Mas ele não desmontou, não pediu intervalo e não tratou pergunta difícil como tentativa de golpe. Reagiu, contra-atacou, cobrou esclarecimentos sobre o Banco Master, mencionou os recursos públicos destinados à publicidade na própria Globo e permaneceu no controle. Lula, quando confrontado com questionamentos sobre Lulinha, Roberta Luchsinger, Jaques Wagner, as fraudes no INSS e outros problemas que cercam seu governo, preferiu discutir com a campainha porque não gostou de quem tocou a porta. Irritou-se, atacou personagens citados e recorreu novamente à Lava Jato, como quem procura uma desculpa antiga numa gaveta já abarrotada.
A diferença mais gritante esteve na postura. Flávio compreendeu que entrevista presidencial não é sessão de terapia, comício sindical nem encontro do fã-clube. Reconheceu erro ao falar sobre a origem das urnas, declarou que respeitará o resultado eleitoral e apresentou caminhos para a Saúde, o ajuste fiscal, a redução de ministérios, o combate às fraudes e a renegociação das dívidas das famílias. Ainda faltam números, planilhas e maior detalhamento? Evidentemente. Mas havia rumo. Lula, por sua vez, comportou-se como o gerente que perdeu as contas da empresa e decidiu brigar com o auditor. Para cada problema, uma desculpa; para cada investigação, uma perseguição; para cada pergunta, mais um episódio da série “A culpa nunca é minha”.
Flávio mostrou ainda aquilo que mais pode preocupar o lulismo: defendeu Jair Bolsonaro sem reproduzir integralmente o temperamento do pai. Foi firme, criticou o STF, sustentou a anistia e preservou sua identidade conservadora, mas sem transformar a bancada da Globo num balcão de bar às duas da manhã. Essa contenção pode aproximá-lo do eleitor que deseja mudança, mas não quer viver em campanha de guerra permanente. Lula percorreu o caminho oposto. Em vez do estadista experiente, surgiu o veterano irritado, aparentemente convencido de que democracia é ótima desde que ninguém faça perguntas inconvenientes. Para quem tanto discursa sobre o contraditório, o presidente demonstrou enorme dificuldade quando o contraditório sentou à sua frente.
Na comparação direta, Flávio Bolsonaro foi muito melhor. Saiu da entrevista com aparência de candidato preparado para a disputa; Lula saiu parecendo personagem do próprio desgaste. Isso não significa que Flávio tenha solucionado todas as controvérsias nem apresentado um programa completamente fechado. Significa algo muito mais incômodo para o Planalto: diante das câmeras, mostrou mais serenidade, disciplina e disposição para olhar adiante. Lula permaneceu agarrado aos ressentimentos, às desculpas e às batalhas do passado. Flávio não precisou destruir a biografia do adversário. Bastou manter a calma, responder e deixar Lula falar. O presidente, generosamente, fez o restante do serviço sozinho.




