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Soneca bate na água e molha o governo

O Palhaço Soneca acordou. Depois de anos fazendo política no compasso governista, subindo em palanque de governo, sorrindo para o grupo dominante e atravessando eleições com aquele jeitão de quem conhece bem o caminho do poder, agora ele resolveu colocar o nariz vermelho na crise da água. E colocou com gosto. Bateu na Iguá, cobrou explicação, falou de falta d’água, reclamou da Deso e ainda jogou a pergunta no ar: cadê a água, governador? Rapaz, quando até Soneca acorda perguntando pela torneira, é sinal de que a crise deixou de ser boato e virou banho de cuia.

A ironia é deliciosa. Soneca sempre foi visto como um vereador leve, popular, de comunidade, mas também muito próximo dos governos de plantão. Em 2018, estava no palanque de Belivaldo e do grupo que tinha Fábio e Maísa Mitidieri entre os vencedores. Ou seja, não estamos falando de um oposicionista com megafone na mão desde o nascimento. Estamos falando de um governista histórico que, de repente, descobriu que a água não escolhe partido quando falta. A torneira seca é tão democrática que atinge eleitor, vereador, aliado, adversário e até quem achava que concessão era palavra bonita.

O problema político é que, ao bater na Iguá, Soneca não bate apenas na empresa. Ele encosta na Deso, belisca a concessão e respinga no governo do Estado. Pode até dizer que está defendendo o povo, e deve defender mesmo. Mas não dá para fingir que essa crítica não tem endereço político. É como jogar balde de água para apagar fogo e acertar o paletó do governador. Soneca pode dizer que foi sem querer, mas o eleitor sergipano, que é matuto só no sotaque, percebe o movimento: quem sempre dormiu confortável no colchão governista agora acordou porque a casa está sem água.

A trajetória dele também tem seus capítulos de picadeiro político. Ele começou na política em 2012, se elegeu em 2016 com o nome Palhaço Soneca, cresceu em 2020 e conseguiu novo mandato em 2024. Mas também carregou polêmica pesada em 2019, quando estava licenciado por motivo de saúde e foi visto em festa popular, episódio que virou assunto na Câmara, no Ministério Público e terminou com expulsão partidária. A defesa disse que ele apenas descumpriu orientação médica. Pode ser. Mas para o eleitor, ficou aquela cena difícil de explicar: licença médica de dia, festa de noite e a política fazendo malabarismo no meio.

Agora, Soneca tenta transformar a crise da Iguá em palco de cobrança. E nisso ele acerta no tema, porque o povo está irritado, cansado e com razão. Falta d’água não é detalhe administrativo, é humilhação doméstica. Mas a pergunta que fica é outra: Soneca acordou por convicção ou por conveniência? Porque cobrar a Iguá é correto. Cobrar a Deso também. Cobrar o governo, mais ainda. Só não vale dormir abraçado com o poder durante anos e acordar agora fazendo cara de fiscal indignado. Em Sergipe, o povo ri da piada, mas entende o truque. E quando o palhaço acorda tarde demais, a plateia pergunta: foi sede de justiça ou sede de voto?

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