A primeira segunda feira de campanha serviu para lembrar uma verdade antiga da política: algoritmo ajuda, vídeo bonito impressiona, mas eleitor continua sendo uma criatura inconvenientemente presencial. Valmir de Francisquinho começou pelo rádio e depois apareceu na feira de Porto da Folha acompanhado de Eduardo Amorim e Priscila Felizola, numa agenda registrada pela imprensa local. É política no modo raiz: feira, aperto de mão, comerciante querendo falar, eleitor com reclamação pronta e candidato sem a possibilidade de apertar o botão de pular anúncio. Pode parecer uma fórmula do tempo em que santinho vinha com cheiro de gráfica, mas há uma razão para ela sobreviver. Na feira ninguém pergunta qual filtro foi usado no Instagram. Pergunta pela estrada, pela saúde, pelo emprego e, dependendo do humor, ainda pergunta onde o candidato estava nos últimos quatro anos. Rede social permite editar. Feirante dificilmente oferece essa comodidade.
Fábio Mitidieri, ao contrário, aparece numa campanha em que André Moura ocupa papel cada vez mais visível na articulação e na mobilização dos eventos, a ponto de alimentar a percepção política de que André não está apenas acompanhando o governador, mas ajudando a leva-lo até onde estão lideranças, grupos políticos e plateias organizadas. Os dois vêm aparecendo juntos em atos de campanha, numa parceria que a própria cobertura local descreve como central na estratégia do agrupamento. É quase uma dupla sertaneja eleitoral: Fábio chega com o governo debaixo do braço e André parece chegar com a agenda, os contatos e parte da plateia na lista do WhatsApp. A pergunta que inevitavelmente nasce dessa fotografia é até onde termina a força própria do governador e começa a capacidade de articulação de André Moura. Porque uma coisa é entrar num evento lotado; outra, bem diferente, é saber quem ajudou a colocar as cadeiras, chamar as lideranças e convencer o povo a ocupa-las. Na política, como no teatro, o público olha para quem está no palco, mas quase nunca pergunta quem vendeu os ingressos.
Helton Monteiro preferiu usar o microfone para marcar sua identidade política. Em entrevista ao Jornal da Fan, defendeu participação popular, fez críticas ao modelo político estadual e às privatizações, numa estratégia coerente com a posição programática do PSOL. Emanuel Cacho e Taty Cristina, por outro lado, tiveram uma largada publicamente mais discreta, com presença mais concentrada no ambiente digital segundo levantamento publicado sobre o início da campanha. Não significa ausência de candidatura, evidentemente, mas campanha eleitoral tem uma característica semelhante a festa de casamento: você pode chegar mais tarde, só não pode reclamar se já tiverem servido o jantar e começado as fotografias. Para candidaturas com estruturas menores, criatividade costuma valer quase tanto quanto orçamento. O problema é que criatividade precisa aparecer. Pensamento político guardado na gaveta possui uma enorme qualidade intelectual e aproximadamente zero votos.
Ricardo Marques conseguiu produzir uma das situações mais curiosas dessa largada. Pastora Salete deixou a posição de vice e anunciou apoio a Valmir, afirmando publicamente que não enxergou prioridade nem unidade interna na caminhada do grupo. Ricardo respondeu dizendo respeitar a decisão e que apresentaria um novo nome para a vice no momento adequado. O problema é que a política possui horror ao vácuo. Quando não existe um nome, existe uma pergunta. Quando a pergunta demora, ela ganha cadeira, cafezinho e começa a receber visita. Assim, enquanto Ricardo tenta falar de propostas e posicionamentos, a ausência de um vice virou assunto inevitável ao redor da candidatura. É uma dessas ironias que somente eleição produz: normalmente candidato a vice passa meses brigando para aparecer. Desta vez, foi embora e conseguiu aparecer mais ainda.
O retrato dessas primeiras horas mostra seis candidaturas oficialmente registradas ao Governo de Sergipe seguindo caminhos bastante diferentes, sem que uma fotografia inicial permita decretar sucesso ou fracasso de ninguém. A Justiça Eleitoral e veículos nacionais registram Valmir de Francisquinho, Fábio Mitidieri, Ricardo Marques, Helton Monteiro, Emanuel Cacho e Taty Cristina na disputa. Uns começaram privilegiando contato presencial, outros estrutura política, outros discurso programático e outros ainda precisam ampliar a visibilidade das agendas. Ricardo, adicionalmente, administra a recomposição de sua chapa. A campanha mal abriu a porta e já entrou feira, rádio, reunião, privatização, investimento, vice que saiu e candidato tentando convencer o eleitor de que desta vez tudo será diferente. O eleitor sergipano, experiente como sempre, provavelmente observa tudo com aquela serenidade de quem já ouviu muitas vezes a frase “agora vai”. Ele sorri, aceita o santinho, toma o café oferecido e guarda para outubro a única opinião que realmente encerra a discussão: o voto.




