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A cerveja virou o terapeuta do sergipano

O sergipano tem uma relação quase espiritual com a cerveja. Ela acompanha o caranguejo na praia da Atalaia, entra na discussão sobre política no bar do Cabeça, participa das análises táticas do Confiança e do Gipão e ainda aparece toda quarta-feira no Pastel Sol para a tradicional confraria flamenguista que começa debatendo escalação e termina discutindo até inflação da cebola. Em Aracaju, a cerveja não é apenas bebida. É praticamente assessora emocional do trabalhador. O sujeito sai do aperreio do trânsito, do calor de quarenta graus e da conta de energia e pensa automaticamente: “rapaz, hoje eu mereço uma gelada”.

E convenhamos, poucas coisas unem mais o aracajuano do que uma mesa de plástico, um balde de cerveja suando e alguém dizendo “a primeira é minha”. O problema é que a cervejinha que ajuda a relaxar também gosta de fazer uma baguncinha no organismo. A cerveja mexe no intestino, altera as bactérias da barriga e transforma o cidadão no verdadeiro corredor olímpico do banheiro no dia seguinte. Quem nunca acordou depois de um churrasco no Orlando Dantas sentindo que o corpo inteiro estava em reunião de emergência contra ele mesmo, claramente nunca viveu um sábado sergipano raiz.

Mas nem tudo é tragédia alcoólica. Os estudos dizem que tomar uma ou duas cervejas pode ajudar o coração e até reduzir riscos de diabetes. Ou seja, o ser humano passou séculos tentando justificar o happy hour e finalmente a ciência resolveu dar uma ajudinha. O problema é que o brasileiro escuta “uma ou duas” e entende “caixa térmica completa”. O cidadão começa no chopinho inocente da Orla e termina abraçado com desconhecido cantando Calcinha Preta como se estivesse encerrando uma turnê mundial. O fígado olha de cima e já começa a escrever carta de demissão.

No fundo, a cerveja virou quase patrimônio afetivo do sergipano. Ela está no futebol da quarta feira, no pagode do fim de tarde, no churrasco improvisado e até naquele encontro “rapidinho” que termina às duas da manhã debatendo quem foi melhor: Valmir de Francisquinho, Fábio Mitidieri, Belivaldo ou o garçom do bar que traz a cerveja mais gelada da cidade. O segredo talvez esteja no equilíbrio. Porque tomar uma gelada olhando o mar da Atalaia pode até fazer bem para alma. O problema é quando o cidadão transforma o happy hour em modalidade olímpica e acorda no outro dia com o intestino fazendo mais protesto do que sindicato em época de eleição.

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