Há textos que não precisam gritar para causar desconforto. Bastam dados. Cláudio Nunes escreveu um desses textos. Ao classificar a aprovação de Valmir de Francisquinho em seu terceiro mandato como um “fenômeno a ser estudado”, o jornalista não fez elogio explícito, tampouco militância disfarçada. Fez jornalismo. E jornalismo, quando bem feito, costuma produzir o efeito colateral mais temido da política: obriga todo mundo a ler e pensar.
Pesquisas eleitorais sempre foram tratadas no Brasil como previsão do tempo. Quando fazem sol para o adversário, são confiáveis. Quando anunciam chuva sobre o próprio quintal, viram “institutos duvidosos”. Ainda assim, como bem lembra Cláudio Nunes, quando pesquisas diferentes, com métodos distintos, começam a convergir, o problema deixa de ser o termômetro. O paciente é que precisa se explicar.
No caso sergipano, o contraste é quase didático. De um lado, o governador Fábio Metidieri aparece com 48% de desaprovação. Não se trata de um governo desastroso, nem de terra arrasada. O governo funciona. Paga contas, inaugura obras, mantém a máquina rodando. O drama é outro. Governar corretamente virou o novo “não fez mais que a obrigação”. E política, goste-se ou não, não se move apenas à base de boletim administrativo.
Do outro lado da equação, Valmir de Francisquinho encerra o primeiro ano de seu terceiro mandato com 71% de aprovação. Aqui, vale sublinhar: terceiro mandato. Aquele estágio da carreira política em que, segundo os manuais, o desgaste é inevitável, o eleitor se cansa e a paciência acaba. Menos em Itabaiana. Lá, o roteiro foi invertido. O tempo passou, as críticas vieram, os ataques se multiplicaram, e a aprovação… subiu.
É exatamente esse paradoxo que Cláudio Nunes identifica com precisão cirúrgica. Valmir é, talvez, o político mais escrutinado do Estado. Apanha da oposição, de setores da imprensa, de adversários históricos e ocasionais. É investigado, questionado, provocado, inelegível. E, ainda assim, o eleitor segue firme, como quem diz: “Pode bater, a gente está olhando a obra”.
Os números ajudam a explicar a aparente contradição. Itabaiana cresce em população, melhora indicadores econômicos, lidera rankings de cobertura vacinal, aparece bem posicionada em saúde e educação, coleciona selos de transparência. Nada disso vira meme, nada disso viraliza em rede social, mas tudo isso pesa quando o eleitor decide se vai reclamar ou agradecer.
Enquanto isso, o tabuleiro político estadual começa a ranger. Visitas que seriam apenas protocolares passam a ser lidas como sinais. Antigos adversários dividem a mesa, aliados surgem em bloco, deputados federais circulam juntos como quem não quer nada, mas quer dizer tudo. A política, como sempre, fala mais nos gestos do que nos discursos.
E como toda boa trama, surgem os rumores. Nomes para vice, possibilidades, disputas silenciosas dentro de espaços oficialmente técnicos, mas historicamente políticos. Tribunal de Contas vira xadrez. Sebrae entra na conversa. Grupos familiares se movimentam. O governador já tem seu vice escolhido. Do outro lado, só o fato de Valmir ainda não ter decidido nada já provoca mais inquietação do que muitos anúncios formais.
Aqui, o sarcasmo se impõe quase sozinho. Um gestor estadual enfrenta rejeição no meio do caminho. Um gestor municipal, após quase uma década no poder, vira referência positiva. Um precisa explicar por que não empolga. O outro não precisa explicar nada, porque o eleitor faz isso por ele.
Cláudio Nunes acerta novamente ao não tratar isso como obra do acaso ou fruto de carisma pessoal. O fenômeno Valmir não se sustenta em discurso inflamado, nem em promessas messiânicas. Sustenta-se em entrega. E entrega, convenhamos, é o verbo mais subversivo da política brasileira contemporânea.
Talvez Valmir seja candidato ao governo. Talvez não. Talvez apoie alguém. Talvez espere abril. Pouco importa, por ora. O que importa é que, mesmo em silêncio, ele já está no centro do debate. E isso não se compra, não se ensaia e não se improvisa. Isso se constrói. Lentamente. Com resultado.
Neste Natal, como ironiza o calendário, a política sergipana ganha um presente curioso: um jogo que está longe de ser W.O. Um jogo de titãs, como bem define a análise, onde números pesam mais que narrativas e onde o eleitor parece menos disposto a ouvir desculpas e mais atento ao que funciona.
O texto de Cláudio Nunes cumpre o papel que se espera do jornalismo sério: não aponta heróis nem vilões, mas expõe fatos. O resto, como sempre, fica por conta da política. E do eleitor, esse personagem que muitos subestimam, mas que, vez ou outra, resolve lembrar que sabe muito bem o que está fazendo. No fim das contas, o fenômeno não é só Valmir. O fenômeno é o desconforto que ele provoca. Porque nada assusta mais a política tradicional do que alguém que segue sendo aprovado quando, teoricamente, já deveria estar gasto. E isso, goste-se ou não, é um dado difícil de ignorar. E Feliz Natal para todos!





Respostas de 2
A ± menos 8 anos atrás o Valmir tornou protagonista da disputa politica estadual e não saiu mais, poucos prefeitos do intetior de Sergipe conseguiu esse respeito politico do eleitor por tanto tempo.
Um fenômeno a ser estudado.
Pelos sinais, se disputar, será o próximo governador sergipano.