A decisão do ministro Kassio Nunes Marques de suspender a divulgação da pesquisa AtlasIntel não caiu do céu nem nasceu de chilique jurídico. O que apareceu no questionário tinha mais tempero político do que feijão de campanha em porta de comitê. Perguntar ao eleitor sobre “esquema de fraudes financeiras do Banco Master”, depois associar o tema a Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro, áudio, mensagens vazadas, escândalo e, em seguida, medir disposição de voto é querer vender empurrão como estatística. Aí não é termômetro eleitoral. É micro-ondas: esquenta o entrevistado e depois finge surpresa com a temperatura.
A pergunta mais venenosa é aquela que já chega de sapato sujo na sala: “qual grupo político está mais envolvido no esquema de fraudes financeiras do Banco Master?” O detalhe é cruel. A pergunta não começa perguntando se o eleitor acredita ou não na existência do tal esquema, nem se tem informação suficiente. Ela já entrega o pacote pronto, com laço acusatório, e manda o entrevistado escolher quem está mais envolvido. É como perguntar em feira: “quem roubou o bode, João, Pedro ou os dois?” Antes de investigar o bode, a pergunta já botou alguém no curral da culpa.
Depois vem a sequência: áudio, mensagens vazadas, Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Banco Master, escândalo e “evidências de envolvimento direto”. Isso não é questionário neutro. É roteiro de série criminal com opção de múltipla escolha. O entrevistado entra para responder pesquisa e sai quase se sentindo jurado de tribunal popular. E quando, depois desse banho de narrativa negativa, a pesquisa pergunta se ele ficou mais ou menos disposto a votar em Flávio, a resposta já não nasce limpa. Nasce com escolta, sirene e legenda pronta para virar manchete.
Kassio Nunes Marques fez bem em puxar o freio de mão. Instituto de pesquisa não pode se esconder atrás da palavra metodologia como se fosse senha de camarote. Pesquisa eleitoral influencia partido, mídia, eleitor, doador, aliado, adversário e até aquele prefeito que só pula para o lado de quem aparece na frente. Se o questionário vira palanque com planilha, o TSE tem que chamar para explicar. Não é censura. É fiscalização mínima de uma máquina que pode fabricar ambiente político com cara de ciência.
A defesa de que “o eleitor sabe julgar” também não resolve tudo. Claro que o eleitor não é criança. Mas também não é cobaia de laboratório eleitoral. Uma coisa é medir opinião pública. Outra é empurrar o entrevistado por um corredor de palavras negativas, mostrar áudio, falar em escândalo, fraude, envolvimento e depois perguntar: “e aí, você vota nele?” O sergipano diria logo: “oxe, desse jeito até santo perde eleição”. Informação é uma coisa. Indução é outra. E pesquisa que precisa contaminar o ouvido antes de medir a cabeça já chega mancando.
Se a AtlasIntel fez tudo certo, que mostre tudo sem fazer novela. Ordem das perguntas, justificativa metodológica, áudio usado, cadeia de custódia, logs, critérios e documentação técnica. Quem trabalha com pesquisa pública tem que aguentar luz acesa. Eleição já tem boato demais, esperteza demais, marqueteiro demais e militante demais fingindo que é analista. O que não dá é transformar pesquisa em cabresto estatístico, conduzir o eleitor pela mão e depois pedir aplauso dizendo que foi ciência. Ciência mede. Panfleto empurra. E o problema dessa pesquisa é que ela saiu vestida de jaleco, mas com cheiro de comitê.




