Rogério Carvalho entra em 2026 carregando uma mala pesada: PT, Lula, mandato, discurso de oposição e agora uma aproximação com Fábio Mitidieri que parece roteiro escrito por marqueteiro depois da terceira xícara de café frio. Durante anos, Rogério bateu no governo, cobrou, criticou, chamou de corrupto, tensionou e tentou vender a imagem de fiscal duro do Palácio. Agora, aparece no mesmo campo político de Fábio como se a memória do eleitor tivesse sido terceirizada para assessoria.
A contradição é grande demais para caber em nota oficial. Ontem era cobrança. Hoje é composição. Ontem era desconfiança. Hoje é maturidade política. Ontem o governo merecia lupa. Hoje merece abraço. Em Sergipe, isso tem nome conhecido: política fazendo curva fechada sem dar seta. O eleitor olha a cena e pergunta, com razão, se mudou o governo, se mudou Rogério ou se mudou apenas a conveniência.
Rogério é experiente, preparado e conhece Brasília como poucos. Mas também carrega a fama de político frio, fechado, pouco afetuoso e muito mais confortável no discurso nacional do que no varejo humano de Sergipe. Aqui, onde até adversário cumprimenta antes de passar a rasteira, frieza demais vira rejeição silenciosa. Rogério fala bonito para auditório, mas nem sempre parece falar com o eleitor que decide no interior, na feira, no zap e na conversa de calçada.
A situação fica ainda mais irônica quando a régua muda conforme o aliado. Se alguém próximo ao PT conversa com Valmir, vira escândalo, sirene e manchete com luz vermelha. Mas quando Rogério, senador do PT e lulista histórico em Sergipe, se aproxima de Fábio, aí chamam de engenharia política, união por Sergipe e grandeza institucional. É a velha feira da conveniência: o mesmo produto muda de preço dependendo de quem está comprando.
Nas pesquisas para o Senado, Rogério segue no jogo, mas longe de passear em céu de brigadeiro. A disputa está embolada, com vários nomes competitivos e ninguém podendo escolher cortina para gabinete em Brasília. Tem André Davi, André Moura, Eduardo Amorim, Rodrigo Valadares, Edvaldo Nogueira, Alessandro Vieira e Rogério brigando por espaço. Traduzindo: tem mais candidato querendo a cadeira do que vaga disponível, e o eleitor ainda não assinou procuração para ninguém.
A crítica a Rogério não é falta de inteligência. Inteligência ele tem. O problema é coerência, empatia e clareza política. O Rogério que criticava Fábio tirou férias? O Rogério que cobrava investigação agora confia no governo? O Rogério do PT está em projeto próprio ou apenas embarcou no ônibus do Palácio com passagem carimbada por Lula? Em política, mudar de rota é permitido. Mas quando a curva é brusca demais, o povo sente enjoo. E urna, ao contrário de palanque, não esquece com facilidade.




