Há políticos que passam a vida tentando construir uma marca. Capitão Samuel construiu uma poderosa: a de representante dos militares. Foi eleito deputado estadual falando a linguagem da tropa, defendendo policiais, bombeiros e aposentados da segurança pública. O problema é que a política tem memória. E a memória do militar aposentado chega todo mês impressa no contracheque.
Samuel costuma afirmar que foi o parlamentar que mais fez pela categoria militar em Sergipe. É uma declaração forte. Talvez até forte demais. Porque quando o assunto chega à reforma da Previdência de 2019, muitos militares da reserva fazem uma pergunta simples: se era o principal defensor da categoria, por que acompanhou o governo numa das votações mais impopulares para os reformados, aposentados e pensionistas?
É verdade que a reforma seria aprovada mesmo sem seu voto. Mas política não vive apenas de matemática. Vive também de símbolos. E o símbolo que ficou para muitos militares foi o de um líder que, no momento mais delicado, preferiu permanecer ao lado do governo em vez de marcar posição ao lado da tropa que o ajudou a construir sua carreira política.
Outro ponto que alimenta críticas é a transformação da imagem do antigo líder associativo. O Samuel que enfrentava governos deu lugar, na visão de muitos críticos, ao Samuel que negocia com governos. O homem do confronto virou o homem da composição. Nada ilegal. Nada proibido. Mas suficiente para gerar desconforto entre aqueles que esperavam uma postura mais independente.
A situação fica ainda mais curiosa quando observada sob a lente ideológica. Samuel frequentemente se apresenta como bolsonarista. Ao mesmo tempo, integra um agrupamento político ligado ao governo estadual, cuja relação institucional com o governo federal é pública e conhecida. Na política, alianças acontecem. O problema surge quando parte da base passa a enxergar contradição entre discurso e prática.
Enquanto isso, novas lideranças militares tentam ocupar espaço. Entre elas, o coronel Alessandro Ribeiro, frequentemente lembrado por setores da segurança pública como uma voz favorável à revisão de temas previdenciários que continuam gerando insatisfação dentro da categoria. O simples fato de esse debate existir já demonstra que a representação política dos militares não é mais monopólio de ninguém.
O desgaste de Samuel não nasce da falta de história. Pelo contrário. Nasce justamente do tamanho da história que construiu. Quanto maior a expectativa criada ao longo dos anos, maior a cobrança quando decisões impopulares aparecem pelo caminho. O parlamentar que se apresentou como defensor da categoria acabou se tornando um dos personagens mais cobrados por parte dela.
No fim das contas, a grande dificuldade de Capitão Samuel não está nos adversários da esquerda, da direita ou dos demais partidos. Está dentro da própria família militar. Porque oposição se enfrenta em campanha. Já a decepção de antigos aliados aparece todo mês, silenciosamente, na folha de pagamento. E poucos críticos são mais persistentes do que um contracheque.




