A festa teve palco, luzes, artistas famosos e cachês elevados. O forró terminou, o som foi desligado e os convidados voltaram para casa em segurança. Mas os policiais militares que trabalharam durante as próprias folgas continuam esperando o pagamento das IFVs, referentes aos serviços extraordinários prestados. O deputado estadual Georgeo Passos denunciou a situação nas redes sociais e resumiu sua indignação em duas palavras duríssimas: “Governo caloteiro”. Se a denúncia procede, não existe explicação aceitável. Quem trabalhou precisa receber.
Esses homens e mulheres venderam o descanso ao Estado. Deixaram filhos, esposas, maridos, pais e netos em casa para reforçar escalas, enfrentar madrugadas e proteger milhares de pessoas. Não estavam dançando no camarote nem assistindo ao espetáculo. Estavam de pé, atentos e expostos ao perigo para que os outros pudessem celebrar. A folga que o policial entrega não volta no mês seguinte. É um pedaço da vida familiar que desaparece para sempre e que, no mínimo, precisa ser honrado com o pagamento pontual.
Sergipe comemora há anos seus indicadores de segurança e o Governo gosta de exibir esse resultado como troféu administrativo. Mas estatística não veste farda, não atende ocorrência e não enfrenta criminoso. Quem produz segurança são policiais treinados, disciplinados e comprometidos, apesar das dificuldades. É uma incoerência moral elogiar a corporação no palanque e esquecer sua remuneração depois da festa. O Governo não pode posar ao lado do resultado e virar o rosto para quem o construiu.
A situação parece saída da música “Caloteiro”: “Pendura pra mim que eu não sou caloteiro”. Só que o policial não é dono de bar, o Estado não é freguês sem cartão e dinheiro público não pode depender do dia em que “Deus quiser”. Houve recursos para estruturas, atrações e 1 milhão em cachê para Safadão, portanto precisa haver prioridade para pagar quem garantiu a ordem e a segurança. A música pode provocar risos. O atraso salarial, porém, provoca angústia, dívida e humilhação dentro da casa de cada policial.
O Governo deve explicar quantas IFVs estão atrasadas, desde quando, qual o valor total devido e em que data fará o pagamento. Não basta telefonema, promessa de corredor ou conversa de comandante para acalmar a tropa. É preciso colocar o dinheiro na conta. Georgeo Passos fez bem ao cobrar publicamente, porque silêncio diante de salário atrasado vira cumplicidade. Sergipe deve sua segurança a heróis e heroínas que merecem respeito, reconhecimento e remuneração. Polícia não vive de homenagem. Polícia também paga feira, escola, energia e prestação. Paguem os policiais.




