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O casamento era privado, mas a contradição virou pública

O casamento de Nara Ayres Britto e Bryan de Jongh Martins foi uma celebração grandiosa, com música, fogos, bebidas sofisticadas, chihuahuas no cortejo e uma lista de presentes capaz de fazer até o porta-ovo se sentir integrante da elite jurídica. Foi luxuoso? Evidentemente. Mas os recursos eram particulares e lícitos, o casal tinha o direito de transformar o casamento em espetáculo. Felicidade privada não precisa de autorização do tribunal da internet.

Carlos Ayres Britto merece tratamento respeitoso. Sergipano de Propriá, professor, jurista, ex-ministro e ex-presidente do Supremo, construiu uma trajetória marcada pela inteligência, gentileza e elegância. Quem acompanha suas aulas, palestras e decisões reconhece um verdadeiro lorde das palavras. Carlinhos também mantém afinidade pública com o campo progressista, foi indicado ao STF por Lula e declarou voto nele em 2022. Isso não diminui sua biografia. Apenas deixa o contraste mais saboroso: um homem ligado ao discurso da igualdade participando de uma celebração em que determinados presentes custariam mais que o orçamento anual de muitas famílias. Marx talvez não recusasse o convite, mas provavelmente pediria para conhecer a lista.

Nara também possui carreira própria. É advogada, professora, conselheira da OAB do Distrito Federal e presidente do Instituto Empoderar. Defende autonomia feminina, combate à misoginia, participação das mulheres no poder e direitos reprodutivos. São pautas progressistas legítimas, concorde-se ou não com elas. Bryan administra o escritório da família e atua em instituições jurídicas, mas não existe base segura para chamá-lo de militante ou filiado ao PT. A crítica correta não está em inventar carteirinha partidária. Está em observar uma esquerda institucional, sofisticada e bem relacionada, muito distante da marmita que costuma aparecer nos discursos.

A lista de presentes teria alcançado R$ 1,57 milhão, mas estimativa não é nota fiscal e lista não significa compra integral. Ainda assim, as imagens mostram uma festa exuberante. E não há pecado nisso. Eleitor de Lula pode beber champanhe, feminista pode usar vestido luxuoso e progressista pode contratar banda. Ninguém precisa fazer voto de pobreza para defender justiça social. A incoerência aparece quando a riqueza do adversário recebe o nome de ostentação, enquanto o luxo dos amigos vira experiência afetiva. A ideologia, quando recebe convite nominal, também sabe vestir traje de gala.

O casamento deve ser celebrado e a família, respeitada. Nara e Bryan não precisam pedir desculpas pela felicidade, tampouco Carlos Britto merece ser atacado por proporcionar ou participar de um momento especial. Mas o episódio revela uma realidade que o Brasil precisa enxergar: existe uma esquerda elitizada, cercada por escritórios, tribunais, institutos e salões exclusivos. Ela fala em repartir o bolo nacional, mas aprecia uma mesa principal muito bem decorada. Não é crime, nem escândalo. É apenas uma contradição brasileira servida em taça de cristal e acompanhada por um porta-ovo que, pelo preço, talvez também tivesse direito a discurso.

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