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A saúde dos contratos milionários e dos pacientes que continuam esperando

A saúde pública de Sergipe precisa ser examinada para além das inaugurações, das fotografias oficiais e dos números cuidadosamente escolhidos para as redes sociais. Entre 2023 e 2026, a estrutura contratual da Secretaria de Estado da Saúde cresceu, foi renovada e ganhou novas modalidades de prestação de serviços. Há contratos milionários envolvendo hospitais, alimentação, limpeza, neurocirurgia, hemodiálise, regulação, resíduos hospitalares e manutenção. O eleitor, porém, deve fazer uma pergunta muito simples: se o volume de recursos e obrigações aumentou, por que a sensação de quem procura atendimento ainda é marcada por espera, incerteza e dificuldade? Dinheiro público aplicado na saúde não pode ser medido apenas pelo tamanho do contrato. Precisa ser medido pelo tempo que o paciente leva para conseguir uma consulta, realizar uma cirurgia ou encontrar um leito.

A primeira dificuldade está na própria forma como os contratos são apresentados. O Portal da Transparência reúne instrumentos numerados em 2023 que aparecem com assinaturas, renovações ou vigências registradas em 2025 e 2026. Também foram encontradas linhas repetidas e versões diferentes de um mesmo contrato. Isso significa que uma soma apressada pode criar um crescimento artificial, contando renovação como contratação nova ou tratando registros duplicados como despesas independentes. O eleitor não precisa ser contador para entender o problema. Imagine receber a mesma conta de energia duas vezes e ouvir que o consumo da casa dobrou. A matemática estaria correta no papel, mas a realidade continuaria errada. Transparência verdadeira não é apenas colocar números na internet. É organizá-los de maneira que qualquer cidadão consiga compreender quanto foi contratado, quanto foi aumentado, quanto foi executado e quanto efetivamente saiu dos cofres públicos.

Alguns valores revelam a dimensão financeira da rede. Entre os instrumentos analisados, aparecem aproximadamente R$ 94,88 milhões destinados ao Hospital Santa Isabel, R$ 18,39 milhões para sistemas de combate a incêndio, R$ 14,80 milhões para alimentação hospitalar e R$ 10,37 milhões para serviços de neurocirurgia adulta e pediátrica. São despesas importantes e, em muitos casos, indispensáveis. A questão não é condenar o contrato pelo simples fato de ele ser milionário. A questão é exigir a demonstração do resultado. Quantos pacientes foram atendidos? Quantas cirurgias foram realizadas? Quantas foram canceladas? Qual foi o tempo médio de espera? Quantos leitos permaneceram indisponíveis? Quanto custou cada atendimento efetivamente entregue? Sem essas respostas, o cidadão recebe uma montanha de cifras e continua procurando, no meio dela, a consulta que ainda não conseguiu marcar.

A comparação entre os anos também deve ser feita com responsabilidade. Valor contratado não significa valor pago, assim como valor empenhado não prova que o serviço foi realizado. É preciso separar o preço inicial, os reajustes, os aditivos, as prorrogações, a quantia liquidada e o pagamento efetivo. Em um dos contratos de limpeza examinados, o valor passou de aproximadamente R$ 1,98 milhão para R$ 2,31 milhões, aumento nominal de 16,76%. Esse crescimento pode decorrer de reajuste salarial, ampliação das áreas atendidas, inclusão de novas unidades ou encarecimento do serviço. O que não pode acontecer é o governo oferecer apenas o percentual que lhe convém, enquanto o cidadão fica encarregado de adivinhar o motivo. Na saúde pública, até a vírgula precisa apresentar prontuário.

É verdade que o Estado divulga expansão de programas, cirurgias, ações itinerantes e novos equipamentos. Esses avanços precisam ser reconhecidos quando produzem resultados comprovados. Entretanto, propaganda institucional mede entregas escolhidas pela própria administração, enquanto a qualidade da assistência exige indicadores mais incômodos. O eleitor deve observar a demora nas emergências, as filas por procedimentos especializados, a falta de medicamentos, a disponibilidade de profissionais, a ocupação dos leitos, as transferências represadas e as reclamações dos usuários. É possível aumentar o número geral de atendimentos e, ao mesmo tempo, manter milhares de pessoas esperando por soluções mais complexas. A estatística registra quem entrou no sistema. A vida real pergunta quando essa pessoa saiu tratada.

O diagnóstico, portanto, não autoriza conclusões simplistas, mas impõe uma cobrança objetiva. O Governo de Sergipe precisa publicar uma série histórica limpa, separada por ano, órgão, fornecedor, objeto, valor inicial, aditivos, pagamentos e resultados assistenciais. O eleitor tem o direito de comparar cada real acrescentado aos contratos com aquilo que melhorou dentro dos hospitais. Afinal, saúde pública não é uma competição de planilhas nem um desfile de cifras bem maquiadas. É o lugar onde o cidadão chega fragilizado, muitas vezes com dor, medo e pressa. Se os contratos cresceram, o atendimento também precisa crescer. Se o dinheiro correu, a fila precisa andar. E, se a fila continua parada, cabe ao eleitor perguntar quem recebeu, quanto recebeu e por que o paciente ainda está esperando.

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